Hayley Williams fala sobre seu processo de cura emocional a Zane Lowe

Em mais uma entrevista longa e intimista para Zane Lowe (Apple Music), Hayley Williams dá detalhes da composição de algumas de suas músicas presentes em no novo álbum Flowers For Vases/Descansos. Hayley também conta algumas histórias que a inspiraram, como a fuga para Nashville com sua mãe quando ela ainda era criança e sobre seu processo de cura emocional durante a quarentena. Confira a tradução completa da entrevista!

Chegou a hora da 44ª conversa aqui na série de entrevistas, é a segunda conversa neste podcast com Hayley Williams e espero que haja muito mais. Essa não se parece a conversas relacionadas ao lançamento de novas músicas, mesmo que seja. Há um álbum novo da Hayley Williams, que é uma incrível coleção de músicas que detalha vividamente toda a experiência de ter o coração partido. Investir tanto em algo ou alguém e tudo isso ser arrancado de ti, por um motivo ou outro. Como se sentir no dia seguinte, ou no próximo e assim por diante. Ainda, juntamente com uma seleção de álbuns clássicos, realmente serve ao propósito de explicar e descrever como é este sentimento, e a música e performance são absolutamente incríveis, totalmente executadas pela Hayley sozinha. É uma conquista incrível. Mas não passamos muito tempo falando dos detalhes de todo o processo quando conversamos, meio que aproveitamos para falar da experiência humana que inspirou a música, de onde isso veio, em uma conversa envolvente que faz com que uma hora passe voando e sequer falamos das baterias, da guitarra, do significado desta ou daquela música. Para mim, esse é o tipo de conversa que permite entender melhor todo o processo que está envolvido na criação da música, de onde vem, sabe? Você consegue ouvir o que está acontecendo quando a música é tocada, o que acontece por trás das cenas. Hayley Williams sempre foi honesta e transparente sobre isso. Eu agradeço por você conferir isso. Essa é a minha nova conversa com Hayley Williams aqui na série de entrevistas.

Z – Chegou a hora de conversar, minha amiga.

H – Ah, não! Obrigada pela terapia.

Z – E aí? Como você está?

H – Estou bem! Está meio nublado hoje aqui na velha Nashville. Eu sou uma daquelas pessoas que, no inverno, definitivamente precisa tomar cinco vezes mais vitamina D, pois sou afetada pela estação. Enfim, estou superando isso e, na verdade, estou me sentindo melhor.

Z – Que bom! Eu particularmente gosto um pouco do inverno. É uma das coisas das quais sinto falta de morar no Reino Unido, desse período nebuloso bem definido no qual você tem a chance de realmente se trancar em casa e internalizar melhor as coisas ao invés de ser zoado por raios de sol eternos.

H – Sim.

Z – Pois os raios de sol podem te zoar. Se você estiver de mau humor e sair de casa quando está ensolarado, é como se fosse um “foda-se”.

H – Isso é verdade. Quando eu morava em L.A. eu sentia que… Eu realmente acho que quando você tem algo a todo tempo, você automaticamente não dá o devido valor. Mas morei em L.A. por três anos… Eu realmente odiava que tudo parecia feliz a todo tempo.

Z – Eu me esqueci totalmente que você viveu em L.A., tipo “o quê?”.

H – Eu sei! Isso não tem a ver comigo.

Z – Eu não sei. E deu certo? Eu não sei.

H – Eu tentei. Escute, eu tentei várias coisas que não deram certo. Levou um tempo, mas acabei percebendo.

Z – E você tem que continuar percebendo, é o ponto, certo? O ponto é que tudo é apenas uma grande coisa, um grande processo, uma grande jornada, certo? Não existem resultados aqui. O mais perto que podemos chegar são percepções que, por meio de qualquer canal que você escolha, permite entender melhor onde você está, e você tem feito isso de maneira maravilhosa. Eu não sei se você quer focar em um EP, eles me mandaram o álbum completo, mas eu sigo qualquer narrativa que você quiser seguir hoje. Podemos fazer em duas partes, em uma parte, da maneira que você quiser, irei falar da música.

H – Deus. Eu estou tão agradecida por você. Toda vez… você não entende, mas é como um bálsamo de cura por toda entrevista que deu errado.

Z – E isso me deixa exausto.

H – Eu sinto muito. Ah meu Deus!

Z – Você quer falar sobre o quê?

H – Bem, eu… Quero dizer, a terapia foi boa essa semana, toda aquela merda, “eu vou lançar o álbum de uma só vez”. Nós brincamos de talvez fazer o que fizemos com o “Petals for Armor”, mas acho que tem várias coisas que podemos falar sobre. Eu estou muito orgulhosa de poder tocar tudo nele e também muito orgulhosa que este álbum foi o que eu tinha a mostrar por sobreviver a um ano que foi difícil para todo mundo, sejam as coisas reais e pessoais que aconteceram para cada um ou as coisas globais que aconteceram para o coletivo.

Z – Micro e macro, foi isso, e foi isso que demorou para [inaudível].

H – Sim.

Z – “Eu estou sentindo isso, mas geralmente quando eu sinto isso eu meio que posso priorizar os meus sentimentos frente ao resto”. E o mais difícil foi as pessoas reconhecerem que era complicado, para o indivíduo e para o macro, para a família e os amigos ao seu redor. Mas o que é isso no contexto de uma pandemia global e por infinitas dificuldades sociais e socioeconômicas… E por igualdade, lutas por igualdade, igualdade racial, sabe? As lutas continuam, então como eu me sinto quando estou para baixo, enquanto o mundo todo está passando por aquilo….?

H – Sim. No início, eu posso dizer que há um conforto em saber que, por um milhão de motivos, todos estavam se sentindo para baixo. Então chegou a um ponto onde eu não queria perguntar para ninguém como eu estava me sentindo, não queria que ninguém me perguntasse como estavam. Não é porque eu não ligava… eu não sei, chegou a um ponto onde tudo parecia que poderia ou não ser um trauma.

Z – Sim! Isso abriu uma porta para algo e eu não sei se estou preparado para a resposta, certo? E eu não sei se estou preparado para responder à pergunta. E ainda assim, você foi capaz de encontrar coragem para fazer música no meio disso tudo. O “Petals for Armor” era uma coisa diferente, pois já estava bem encaminhado quando tudo começou a mudar. Esse álbum é um reflexo verdadeiro de como o último ano foi para você. Começando com o ponto de você tocar tudo.

H – Sim.

Z – Você fez um trabalho incrível nesse álbum, você sabe disso. Todos sabiam que você poderia tocar tudo, mas que sempre foi um ser humano de bandas, aquele tipo de pessoa que gosta de ouvir os outros tocando ao seu redor e de colaborar. Então, tendo aquele sentimento e aquela confiança de fazer por você mesma, qual foi o ponto de ativação para você querer fazer isso e não contar com alguém, como foi no “Petals”?

H – Bem, em primeiro lugar, eu realmente não estava vendo ninguém. Eu fiquei mais isolada do que… eu realmente fiquei isolada. Eu me esqueci de como alguns daqueles dias foram solitários. Quando eu percebi que tinha escrito várias músicas, eu realmente não pensei. Eu estava fazendo o “Self Serenades” toda hora, tocando covers no Instagram e postando para que as pessoas pudessem escutá-los. Várias delas não eram músicas populares, mas sim coisas que me traziam conforto. Então, alguns meses se passaram e eu percebi “ah, merda, eu estou compondo minhas próprias coisas”, e pensava que estaria em turnê no momento, em outro país, entediada com o serviço de quarto…

Z – Todas as coisas que você não dava valor, eu sei.

H – Sim! De várias maneiras, ainda era sobre mergulhar profundamente em me sentir bem para retirar coisas com as minhas próprias mãos, e você sabe que tive problemas com isso no passado. Possuir alguma coisa e não desviar ou ser sobre  outra pessoa, mas sim ser orgulhosa de estar abrigando a mim mesma, de fazer coisas por mim mesma e com as próprias mãos. Eu acho que melhorei no violão, o que é legal, pois não tive esse tempo todo para tocar violão desde quando eu era adolescente, antes de começar as turnês. Isso também foi bem terapêutico.

Z – É engraçado você falar da ideia de se abrigar, de cuidar das próprias criações, ser responsável pela própria inspiração e não necessariamente sentir que precisa de outras pessoas para ajudar a trazer isso a você. Você sempre sentiu lá no fundo que agora que você atingiu isso (e isso não é nenhuma indireta para ninguém que você colaborou ou que está no Paramore)… Mas você reconhece agora que sempre teve isso em você e não reconhecia ou que sempre soube que poderia fazer mas que não reconhecia?

H – Essa é uma boa pergunta. Quero dizer, eu estou dividida pela metade, pois eu não me sinto super confiante quando toco, eu nunca me senti. Toda vez que toquei com os meninos ou por aí, diziam “você deveria tocar mais alto”, sabe? E eu tendo a ficar meio tímida, sabe… E eu acho que isso sempre foi verdade, e ainda é. Graças a deus que eu gravei a maioria desses violões diretamente, pois não havia margem para erros, de tom e tudo aquilo, então eu… eu acho que a outra metade é que eu posso lembrar de ter nove anos, ter uma pequena bateria de brinquedo e ser capaz de passar um final de semana inteiro trancada em meu quarto tocando bateria nos álbuns que escutava, provavelmente Hanson ou algo parecido na época. Eu…

Z –  A bateria nos projetos do Hanson era surpreendentemente difícil. Você precisa voltar e escutar os projetos do Hanson, aquelas baterias não eram tocadas. Se você quiser escrever uma música pop tão grande, você precisa ter certeza que a caixa e o bumbo estalem. 
H – Você está certo. E também, eu fiquei devastada depois quando descobri que eles gravaram o Zac Hanson e depois gravaram por cima do Zac Hanson no álbum de estreia.
Z – O que? Isso é novo para mim.

H – Sim! Eu fiquei tão irritada! É realmente triste e me deixa triste. Ele tinha 11 anos!

Z – Ele tinha 11 anos! Mas se você pensar, sim, é uma mancada, mas quando a bateria começa a tocar, escuta só!

H – Oh!

Z – Sem chances que alguém com 11 anos consiga tocar isso, qual é? A quem queremos enganar? Talvez seja o Josh Freese…

H – E ele é fantástico.

Z – Você já conheceu ele?

H – Uma vez, mais de uma vez.

Z – Espera. O que? Você segurou as pontas? Você se comportou? Ok, eu tenho tantas perguntas agora. Primeiro, você estava no Paramore? Deveria estar, pois não entraria nos bastidores se não estivesse no Paramore.

H – Sim.

Z – Ok. Qual era do Paramore estamos falando aqui?

H – Self-Titled.

Z – Merda. Então vocês já eram grandes. Então você estava andando por aí, bateu no ônibus e falou “e aí, como vai? É a Hayley do Paramore”.

H – Eles vieram para o nosso ônibus e disseram “Ei, nós vimos o ônibus e perguntamos para algumas pessoas que trabalhavam…”, você sabe, eu tenho certeza que os membros da equipe estavam passando um tempo no bar, e disseram “perguntamos quem eram, então viemos dizer oi e trouxemos um pouco da nossa cerveja, chamada mmmhops”.
Z – A sua mente estava por todo lugar no ônibus…?

H – Primeiro, eu não sabia que a conversa seria dessa forma, mas…

Z – Saiam da frente, está acontecendo.

H – Sim. Honestamente, eu acho que estava velha demais e longe demais para me mexer e para realmente estar lá, apreciar e pensar: “Oh, eles são caras com aproximadamente a minha idade e estão fazendo isso desde quando tinham 11 anos e eles são muito talentosos”. Sinceramente, isso me impressionou, e ao mesmo tempo eles pareciam tão normais.

Z – Na realidade, você estava pensando “esses caras são normais, eles têm a minha idade e… ah meu deus!”.

H – Apenas para te lembrar, eu não bebia na época, e você sabe que eu tentei beber. Mas não bebia e disse “ah, não, eu não coloco veneno no meu corpo”.

Z – “Me dê um pouco de mmmhops”.

H – Sim.

Z – “Me dê um pouco daquele mmmhops”. Sim, aquela merda tinha gosto horrível, mas por deus, vocês fazem músicas pop dançantes.

H – Eu gostaria de lembrar qual era o gosto. Isso aconteceu há muitas cervejas.
Z – Mudando de assunto: a bateria nesse álbum, ainda que não mantenha o ritmo dos Hanson, aquela criança de 9 anos de idade que estava aprendendo bateria em seu quarto, você foi até lá e a puxou para os dias de hoje, né? Porque as baterias aqui, ainda que não apareçam muito, são fenomenais.

H – Obrigada.

Z – E bateria é difícil, é muito, muito difícil fazer a bateria seguir o sentimento de instrumentos mais emocionais, como o piano, a guitarra, e com certeza, a voz. É difícil, cara, tocar uma bateria e valorizar isso, apenas manter a batida. Muito difícil.

H – E eu sou muito exigente com isso também porque eu estou em uma banda com o meu baterista favorito do mundo, então é muito… De verdade, eu sempre seria dura comigo, mas também, com todos os instrumentos, eu fui tranquila o suficiente comigo mesma pra entender. Sabe, fazer isso tudo é apenas divertido pra mim e eu não tenho que tocar perfeitamente… E eu gravei isso com meu amigo Dan, que compôs Dead Horse e Roses/Lotus/Violet/Iris comigo e com o Taylor. Ele produziu e nós fizemos tudo aqui nessa sala na qual eu estou sentada, em minha casa. E eu apenas falei pra ele: “olha, seja tão duro quanto você precise comigo quando eu estiver tocando, mas eu também não vou ficar brava se você descartar algo porque eu simplesmente não consegui acertar”. Eu tentei não agonizar quanto a isso e realmente me deixei tocar. Eu acho que uma cura real é quando você é um adulto  e ainda consegue se lembrar como tocar como uma criança, e apreciar algo pelo que é.

Z – Fico feliz que você usou essa palavra, porque o próprio álbum é todo um processo dentro da cura, eu acho. Ouvindo, liricamente, você não deixou nada de fora e eu te aplaudo por isso, porque como compositora, intérprete e artista, você cativa a sua audiência. Muitas pessoas performam para o seu público, você definitivamente tem um público que é atraído por você como ser humano e eu posso  imaginar que às vezes isso fez você sentir que precisava se proteger, mesmo das pessoas que mais te amam. Mas você realmente se jogou nesse álbum, você se abriu completamente de uma forma vulnerável. E eu sinto que precisamos tocar em alguns dos assuntos das letras mas eu quero que você escolha, eu não quero fazer uma pergunta, eu quero te seguir.

H – Ok. O álbum é claramente a melhor imagem de coração quebrado que eu conseguia desenhar.

Z – Que você conseguia ouvir…

H – Eu acho. E também, eu percebi, quando eu desfazia alguns nós em mim que eu… Há tantas formas que eu aprendi a amar que não eram certas. E desaprender algo depois de 31 anos é muito difícil. Então, muitas das coisas que eu falo no Petals For Armor, é como se eu ainda estivesse naqueles processos e, honestamente? Se eu tivesse feito uma turnê com o Petals For Armor, eu provavelmente não teria chegado no meu ponto fraco. Eu provavelmente pensava que tinha chegado lá, e não estava nem perto.

Z – Você estava esperando por mais distração, né? Você esperava por mais aplausos, mais luz e mais “legal, isso é ótimo!”.

H – Sim! Porque estar lá fora, estar ocupada o tempo todo e ter pessoas… Sabe, mesmo que existam momentos em que você se sente nua porque tem muitos olhos sobre você, é como eu me sinto mais protegida, estar em turnê. Então, eu acho que uma das minhas músicas favoritas no álbum se chama “Inordinary”. E o motivo de eu ter essa reação com ela é que… Eu acho que começou com algo pequeno, um incidente na minha vida, e ela meio floresce em… Sabe, vai de querer pertencer a alguém, a pertencer a vários “alguéns”, percebendo que “ah, cara, eu mal consigo lembrar como é pertencer só a mim mesma”. E eu pude experienciar isso por um longo período de tempo, seja lá quantos minutos tenha a música, e estou muito, muito orgulhosa disso. Eu sempre faço referência ao meu sétimo ano da escola, quando eu e minha mãe nos mudamos para Nashville, nós meio que… Nós fugimos, quase que literalmente, e nós viemos buscar refúgio. Nós também tínhamos amigos da família na cidade e foi isso que nos ajudou a nos levantar aqui, e também foi quando tudo mudou em minha vida. Foi quando eu conheci os caras, foi quando a música chegou ao meu alcance, eu comecei a aprender a tocar guitarra e, sabe… Eu estou muito orgulhosa desse álbum porque é o álbum mais de “compositora” que já fiz. No final do dia, eu escrevi essas músicas só no meu violão e sozinha, tinha gravações delas no meu celular que se transformaram em um álbum.

Z – Eu sei que é o processo, mas o seu subconsciente está pintando uma imagem, com você percebendo ou não, e não são apenas pinceladas aleatórias. Quando você escuta, não há outra música que poderia começar o álbum e não há outra música que poderia terminá-lo. Então quando chega no momento de montá-lo, devem ter tido momentos em que você se sentiu, bom, muitas coisas, mas em particular, muito… Assustada, porque é uma história e tanto! Não é só uma seleção aleatória de músicas que você pode ordenar para distraí-los, preparando o terreno para crescer. Você escreveu quase que logicamente, eu sinto, em sua própria mente.

H – É, mas te digo que tem algumas músicas que são de alguns anos atrás e eu fui em busca delas. Como a última do álbum, eu a comecei, sei lá, em algum momento em 2018.
Z – Então isso foi durante o After Laughter.

H – Sim.

Z – Uau, então aquele refrão, a ideia de “sem mais músicas para as massas”, o que aconteceu ali?

H – Quando eu amo alguém e eu sinto amor por alguém, eu fico… Meus sentimentos às vezes são grandes demais para o meu corpo, sabe, você me conhece, eu sou uma pessoa muito pequena, mas os meus sentimentos saem de mim e se transformam nessa entidade enorme que às vezes eu sinto que não consigo controlar. E isso fez com que certas coisas fossem mais difíceis para mim do que elas realmente foram. E isso não é pra dizer que meus sentimentos não são válidos, mas que as coisas não são sempre 100% a realidade do que está acontecendo comigo. E eu acho que pego o coração quebrado ou a tristeza profunda sobre a minha história e coisas que passei, que eu assisti, que minha mãe passou… Eu levo essas coisas tão profundamente no meu coração que parece ser o fim. E eu uso essa imagem na música que você está falando, sabe, “mais um último refrão”, e falar sobre não ter mais “música para as massas”, sentindo “meu coração se abrindo, mais um último refrão, estou cantando em copos vazios” – é porque eu estou bebendo muito. Simples assim. Sem mais músicas para as massas é meio que, assim, eu não consigo ter força para mim mesma, como é que vou ter força para isso que as pessoas esperam que eu faça?

Z – Eu perguntei disso porque você falou dessa pessoa que, às vezes, tem essa natureza tímida e acaba, na verdade, se expressando, especialmente na luz da habilidade de outros. E ainda assim você encontra essa confiança de subir num palco e eu assisti Paramore, cara, e quando você aparece é tipo um trovão. E eu me pergunto o que isso suga de você, como você se prepara para ser aquela pessoa que garante que todo mundo se divirta e tenha a experiência do Paramore, especialmente. E eu não quero estragar para as pessoas, eu não quero que as pessoas saibam que quando eles te verem ao vivo de novo não é algo de verdade, mas sim que a gente consiga achar um equilíbrio na resposta de como você chega lá.

H – De como eu subo no palco sendo o oposto?

Z – É, quem te leva até o palco? Você tem um carrinho? Você vai em uma minivan? Mas, quero dizer, como você veste a fantasia, a armadura de super-heroína para sair e ser aquela pessoa e então saber que não é necessário? Sabe, tem aquelas pessoas que são exibidas, que sobem no palco e ficam “eu nasci pra fazer isso” até mesmo fora do palco. Já você me parece ser uma contradição nesse quesito.

H – Sim. É, sim. E essa é uma coisa desconfortável sobre mim, que eu consigo sentir os empurrões disso muitas vezes quando eu preciso ir de algo muito em público para a minha vida em casa, com a minha família ou meus amigos. Eu realmente acho que há algo incrível sobre a energia de estar em união com meus amigos no palco e fazendo um show… Isso me traz muita força que eu não dou créditos a mim mesma, talvez não tanto quanto eu deveria. Eu sei, porém, que isso está em mim o tempo todo, mas eu acho que só não toco nesse assunto. Eu ouvi a Dolly Parton dizer algo incrível sobre isso recentemente… Acho que ela estava falando mais de negócios, mas meio que se aplica aqui. Ela falava sobre como ela tenta fortalecer os músculos ao redor do coração dela, mas o coração dela não pode endurecer, ele precisa se manter vulnerável, precisa se manter muito aberto. O que significa que você pode sentir muito e você pode se machucar, mas você precisa encontrar… Cara, eu estou nisso agora, e estou só tentando encontrar formas de me fortalecer, apesar das coisas que eu passei, apesar de todas as coisas que eu escrevi sobre no Petals For Armor, e coisas que eu escrevi sobre neste álbum. Sabe, eu sou uma pessoa muito forte e resiliente, mas isso apenas vem com o território, eu acho, pra mim. Quando um sentimento vem, quando ele acontece, sabe, é possível que me derrube se eu não entender como encontrar o meu lugar.

Z – Eu nunca soube que você e sua mãe fugiram para Nashville. Quero dizer, houveram dicas para a história, mas eu nunca entendi que realmente foi “faça suas malas, estamos indo embora”.

H – Ah, sim.

Z – Eu me pergunto o quanto isso é refletido na sua escolha de carreira, e você qualifica isso no seu depoimento, sabe, você procurou por uma nova família e você achou uma forma de fugir todo dia.

H – Sim. Eu sou viciada na sensação, isso é algo no qual eu trabalho.

Z – Nós precisamos sair daqui, já deu. Tipo como “o show acabou”. Próxima parada.

H – Seria difícil pra você achar alguém mais preparado ou pró-ativo em tempos de crise, tipo, quando a merda atingir o ventilador, me procure, porque eu vou descobrir como… Nós não vamos deixar nenhum vestígio. Entende o que quero dizer? E eu acho que isso é por conta da merda que eu… Eu nem acho que é tudo, porque tem coisas que eu realmente passei fisicamente com a minha mãe, mas eu acho que é quase como se… Minha mãe eu temos falado muito sobre os conceitos de traumas geracionais e súplicas geracionais. Os traumas geracionais surgiram muito por conta do que a gente falou durante o último ano, finalmente mais e mais pessoas estão dispostas a falarem sobre racismo estrutural, né? E o que isso causou para uma linhagem de pessoas. Mas, para mim, mesmo que só com a minha história de família, as mulheres passaram por muita merda muito antes de eu ser uma ideia, e certamente antes de eu nascer. E, sabe, acho que eu só notei isso muito nova e na verdade nós fugimos para Nashville duas vezes. Na primeira vez nós meio que fomos encontradas, e você deve pensar “bom, você não deve fugir duas vezes para o mesmo lugar”, mas nós… Por alguma razão, Nashville era o lugar. Minha mãe, nós duas, nós amávamos a música, eu realmente queria ficar aqui. Eu não sei, eu acho que minha mãe é uma pessoa super corajosa e muito resiliente e eu sou grata por ter isso, essa estrela do norte às vezes, porque quando eu não me sinto resiliente, eu posso olhar para o que ela passou e pensar “isso está em mim”, sabe?

Z – Sabe, as primeiras impressões do Paramore quando você apareceu pela primeira vez… Nós conversamos um pouco sobre isso, mas sem relação com essa conversa, era que… Sabe… Você nasceu para fazer isso. E aí foi reconhecida dentro de alguém, potencialmente a sua mãe ou outra pessoa, e tudo foi construído em volta dessa ambição que você desejou, de ser uma musicista e uma intérprete. E aí tudo meio que… Tudo aponta para a Hayley. Foi o jeito que o Paramore se posicionou em torno de informantes ou, na pior das hipóteses, os cínicos. 

H – Sim, sim…

Z – E eu me pergunto se, quando você pensou novamente nesse momento que você relatou, você pensou “quero ser musicista, minha mãe escolheu Nashville, todas as peças estão se juntando”. Querendo ou não, eles eram menos cínicos, mas mais puros. Esse tipo de manifestação de um novo destino baseado em uma nova paixão.

H – Sim, cara. Sim. Eu… Eu não acho que me mudei para Nashville tanto por conta da minha carreira, mas sim por sobrevivência. Tipo… Nashville deu a mim e à minha mãe uma chance de viver em paz, me deu uma casa, sabe, o resto da minha família – o lado da família do meu pai – vêm para Nashville eventualmente. Minha mãe e meu pai são divorciados há muito tempo e eles são amigos. E… Sim. Foi um momento lindo e mágico, mas é por isso que eu o trago de volta nessa música “Inordinary”. Eu acho que me tornei uma pessoa, e senti que as ideias, os sonhos que eu tinha quando criança, não eram tão malucos.

Z – E muitos deles se tornam realidade e muitos outros novos problemas começam a surgir, e isso é apenas uma linda janela, um lindo momento no tempo, que é puro antes de se tornar aquele velho ditado “cuidado com o que você deseja”. Porque não vai resolver tudo.

H – Não. Nós costumávamos falar sobre isso nas turnês… Quando fazíamos turnês. O que quer que você leve e leve consigo mesmo naquele ônibus, você volta para isso no fim da turnê. Você desfaz suas malas e é como se tudo ainda fosse o mesmo, sabe. E para tornar tudo ainda pior, o resto de seus amigos e as pessoas que são seu lar continuam se mudando, eles continuam vivendo suas vidas pessoais. Então, sim, aquela janela de tempo nos momentos superformativos já eram isso … Além de ser apresentada a novas músicas e ter essa liberdade real para a minha mãe e eu, nós nos sentimos realmente livres e alegres naquela janela e o momento era tão especial… E eu penso nisso o tempo todo. Especialmente quando tudo fica complicado.

Z – Parece que nos últimos doze meses aconteceram complicações, como você disse, em um “nível global”, mas você teve que navegar um caminho por meio deste, e você o fez pela música, sabe. Eu me sinto obrigado, baseado na qualidade da composição e na incrível habilidade de ter capturado a mágoa nesse álbum. Parece muito, muito novo, muito real. Não tenho certeza se eu já obtive uma resposta sincera… Nunca realmente te fiz essa pergunta, que é: qual a sensação de quando você está experienciando isso de uma maneira muito real e fresca, mas na verdade você está navegando criativamente em oposição a estocá-lo, o que a maioria de nós fazemos, já que não temos a opção de compor – e mesmo aqueles que podem, optam por não fazer até que tenham algum tipo de clareza de pensamento. Não sinto que exista muita clareza de pensamento aqui, exceto tudo o que você está experimentando no momento.

H – Sim, normalmente sou esse tipo de artista. Normalmente sou aquele tipo que gosta de ter uma visão de retrospectiva da informação, sabe, para construir uma música…

Z – É onde a sua imaginação mora, sabe, é quando você pode incorporar um pouco como os fatos são, dependendo da maneira que você está olhando para eles. Mas eu não entendo muito disso aqui. É cru.

H – Ah, cara…  É difícil para mim escutar, como eu te falei… Você sabe, não é um álbum que vou aparecer e dizer “ah, isso é ótimo”.

Z – Que vergonha…

H – Sabe, eu vivi isso e também, ao mesmo tempo, o momento é muito cru, mas também é uma culminação de todas as lições que aprendi em relacionamentos múltiplos que simplesmente eram… Qual é a palavra? Parecia que era o meu próprio corpo. Foi como comer a mim mesma, sabe, eu simplesmente não tive um bom relacionamento comigo mesma para receber coisas simples e puras. Tipo, como relacionamentos românticos. Estou em terapia desde que voltamos para casa do After Laughter, e eu ainda vou, todas as semanas. Tenho muita sorte por poder fazer isso, mas escrever tudo isso foi… Eu não sabia que eu estava compondo músicas, sei que parece difícil de acreditar mas muitas dessas músicas, antes de entrarem em estúdio, eram apenas canções pela metade. Coisas que eu liguei meu gravador de voz do meu telefone e murmurava coisas, e então pude ter certeza que eu estava elaborando isso da maneira certa quando estávamos em estúdio. É muito difícil responder a sua pergunta porque os dias em que você acorda, quando você está sentindo qualquer coisa semelhante a um coração partido ou tristeza, é como se nada fosse real. Nada parece real ou certo, e você questiona cada movimento que faz, você questiona se está fazendo em vão, você questiona todos os seus motivos e você também questiona o motivo de qualquer coisa. Então acho que todos meio que se sentiram assim, pois foi um ano em que todos nós nos sentimos assim. E acho que, saber disso, foi na verdade útil. Foi útil saber que eu não posso ser a única pessoa se sentindo mal ou atingida pela dor. 

Z – Também, não vamos esquecer que existem pessoas neste planeta que tiveram que enfrentar as mudanças dos últimos doze meses, sabe, em circunstâncias ainda mais desafiadoras em algum grau, porque você mora sozinha. E quando você está sozinha, você tem a sua própria companhia. É um senso de loucura, se você não tem pessoas ao seu redor, e você começa a passar pelas coisas… Sabe… Que significado você dava para o seu dia? Quando você estava fazendo música, como você passou aquele tempo?

H – Eu… Fiz muitos chás. Fiz muitas coisas que eram calmas, tipo… Eu meio que ritualizei muitas coisas. Essa foi uma boa maneira que encontrei para… Ainda não posso acreditar que isso é real, mas dei uma entrevista para o Elton John, para o programa dele, e eu estava contando para ele que estava aprendendo a me romantizar. E eu acho que isso parece diferente de várias coisas, mas para mim, especificamente naquele momento, eu estava colocando um álbum da Jessica Pratt para tocar, e eu estava fazendo uma xícara de chá lentamente e acendendo uma vela e sentando no silêncio, apreciando aquela linda música e aquele lindo chá. Se você falasse para a eu de 17 ou 18 anos que esse seria um dia sexy da minha vida, eu estaria muito decepcionada comigo mesma.

Z – Sim, mas é porque você era jovem e você só queria perseguir tudo e, realmente, você estava fugindo de coisas, todos fugimos de certas coisas, estamos correndo em novas aventuras, estamos tentando criar novas oportunidades, sabe. Você esquece que, na verdade, ter esse momento de quando você se senta para tomar uma xícara de chá e cheira algo que parece revigorante e escuta algo e permite os seus sentidos, isso é trazer-se de volta para si mesmo. Porque o resto foi apenas uma grande desconstrução, eu acho.

H – Sim, meu deus… E você tem que fazer isso funcionar, cara. Você precisa desconstruir, você precisa. E eu amo essa palavra porque acho que as pessoas estão se tornando mais familiares com ela, por razões sociais, eu acho que religiosamente… É uma palavra frequente na bíblia, você escuta muito essa palavra. Você se desconstrói, está tirando uma parte, desconstruindo minha fé… Você escuta isso o tempo todo. Mas eu acho que são palavras que não deveriam soar tão subversivas. É algo que você deveria se sentir confortável com ela, porque provavelmente estarei me desconstruindo. Eu estou desfazendo nós já há algum tempo, e talvez estarei fazendo isso pelo resto da minha vida…

Z – Por que não pelo resto da sua vida? Por que parar? Porque, no final do dia, se não é um processo de se descobrir, o que é isso?

H – Sim, eu nunca teria aprendido um jeito melhor para amar se não tivesse desembaraçado alguns desses nós. Eu não teria… Um dos meus maiores problemas é codependência. Nós conversamos sobre isso na primeira entrevista para o Petals… É algo tão simples e complicado o fato de que o divórcio dos meus pais, a uma certa idade… E eu, quer fosse em uma banda, quer fosse em um relacionamento, eu não consigo ver onde eu começo e onde eu termino em relação ao outro. A música “My Limb” é sobre isso. Se eu quero aprender a amar direito e melhor, e se também quero receber um amor melhor, eu teria que parar de cortar meus próprios membros. Sabe o que quero dizer? Eu cheguei num ponto em que percebi que desistir de mim mesma seria como entregar meu corpo inteiro em uma cova de fogo quando na verdade eu só tinha um arranhão no joelho. Sabe? É tipo “vou jogar fora aquilo, vamos tentar começar de novo amanhã”. 

Z – Sim, pensamentos desastrosos, uma abordagem desastrosa para a coisa toda. Tudo está apenas a um problema de ser quebrado.

H – Sim. Sim! 

Z – Eu escutei o álbum só algumas vezes, e há tantas coisas para digerir do álbum, porque a composição é realmente excepcional. Mas o que eu acho que o que você conseguiu com esse álbum – devo dizer – é sobre o processo de limpeza de pensamento em termos de como é… Existe essa coisa de que as pessoas dizem o quanto é incômodo sentir mágoa, mas eu digo que é sorte. Se você for sortudo o suficiente, você sentirá mágoa. Se você for sortudo o suficiente, você terá o seu coração partido. Tenho certeza que vários amigos meus querem me dar um soco na cara quando digo isso, mas eu insisto nisso, sabe. Passar por isso, ter essa experiência, sentir algo tão visceral assim de forma que você possa ver o outro lado disso, se você puder encontrar a força necessária para fazer isso, a recompensa no final é muito maior. Eu acho que esse álbum representa isso para você e para todas as pessoas que o escutarem. É o que eu sinto sobre ele.

H – Sim, e você sabe, essa música, “Good Grief”, é uma boa janela de onde minha mente estava. “So, this is the feeling, you can’t imagine that it’s real/’Til you feel it, oh/ Almost went on, thought I’d had enough / But the hurt is half the fun (Então, esse é o sentimento/Você não pode imaginar que é real/Até você senti-lo, oh/ Quase fiquei entorpecida/Pensei que já tivesse tido o suficiente/Mas a dor é metade da diversão”. Esse verso para mim é o que você está falando e eu nunca pensei sobre isso antes. Que loucura!

Z – São apenas observações simples de desenhos que eu acho que todos passam em algum nível. Você é a melhor, eu amei essa conversa.

H – Você é o melhor!

Z – É bom ver você, Hayley. Como sempre.

H – É muito bom ver você, cara.

Tradução e adaptação: Paramore BR