Okayplayer: Hayley Williams fala sobre influências de artistas e fãs negros

Em nova entrevista, desta vez para o portal Okayplayer, Hayley comentou sobre nosso atual momento político, suas influências vindas da comunidade negra e alguns detalhes sobre o “Petals For Armor”, sua estreia solo. Confira traduzido abaixo!

Hayley Williams fala sobre ser influenciada por Solange, Erykah Badu e os fãs negros do Paramore

A cura não é algo linear. Nossa habilidade de seguir em frente em meio a conflitos interpessoais ou eventos traumáticos envolve um processo muito confuso, artificial e difícil que requer de nós vivenciar algo que muitos afirmam ser a morte do ego. Essa morte é entendida como uma perda da identidade e da subjetividade. Para Hayley Williams, os últimos anos se resumem a um ciclo constante de morte, renascimento e transformação, em todos os aspectos de sua vida. Um ciclo no qual ela já não tem mais medo, como se torna evidente em seu álbum de estreia solo “Petals for Armor”.

Ainda que a natureza do divórcio de Williams e das constantes mudanças de formação do Paramore nos últimos cinco anos seja algo bem documentado, faltam informações em relação a quem a vocalista é de fato – não apenas fora dos palcos, mas em sua casa em Nashville, após um ano de profunda autorreflexão.

Ser do sul [dos Estados Unidos] pode ser algo desconfortável para alguém que reconhece a realidade visceral da escravidão e do antirracismo que dá origem a conflitos, mas existe um profundo amor e cuidado com aqueles que chamam o sul de casa. Mais notavelmente, o sul tem projetado vários artistas negros, em todos os gêneros musicais que tornam o mundo melhor. Para Williams, que retornou à Nashville em 2017, esses artistas tiveram impacto em sua infância, ainda que não transpareçam em seu trabalho com o Paramore. Com o “Petals for Armor”, suas raízes sulistas tornam-se abundantemente claras e a sua apreciação por artistas como Solange e Erykah Badu são evidentes em todo o álbum.

Em seu poema “Driving Into the Wreck” [Mergulhando em destroços] de 1972, a feminista erudita Adrienne Rich escreveu: “Eu vim para explorar os destroços. As palavras são propósitos. As palavras são como mapas”. “Petals for Armor” faz essa exploração relatada por Rich, por meio de seu foco minimalista nos vocais distintamente emotivos de Williams, amados pelos fãs do Paramore. Com o auxílio de seus companheiros de banda Taylor York e Joey Howard (ambos servindo como compositores, e com o último também sendo o produtor principal), grande parte do projeto relata a evolução de Williams ao longo do último ano, envolvendo intensa terapia EMDR (dessensibilização e reprocessamento por meio do movimento ocular), a qual ela vinha fazendo desde o último show do Paramore, em 2018. É um álbum que, assim como foi com o “Fetch the Bolt Cutters” de Fiona Apple no começo do ano, acompanha o processo de desempacotar o sofrimento. A voz de Williams reverbera no decorrer do álbum, o seu lirismo traz à tona suas habilidades em falhar e suas complicações, resultando em uma Williams mais dinâmica que qualquer coisa que já ouvimos em seus trabalhos passados.

Nós conversamos com Williams para discutir sobre o presente cenário político, os fãs negros do Paramore e como a comunidade de admiradores ao seu redor tornou o “Petals for Armor” um álbum possível.

Como a cultura e a música do Sul – em especial os artistas negros – influenciaram o seu trabalho?

Eu penso que fazer este álbum me fez enxergar como os artistas negros têm sido impactantes para mim no decorrer de toda a minha carreira. Minha mãe ouvia de tudo. Nós ouvíamos Janet Jackson no carro; ela também era uma grande fã do Black Sabbath. Meu avô gostava muito de Motown e de Elvis. Voltando para o início do Paramore – ao compor de fato com os caras – foi um choque para o meu sistema, pois não era algo que eu cresci escutando, mas sim uma forma de me expressar naturalmente por meio da música rock. Mais tarde, algumas daquelas influências foram retornando e pude ser capaz de mergulhar fundo em outras influências. No “Petals for Armor”, as duas primeiras referências que enviei para o Taylor e para o Joey enquanto estava compondo eram Solange e Sade. Eu realmente penso que aquelas influências poderiam estar mais evidentes do que estão, mas o meu amor por Björk e Thom Yorke se sobressaiu. Acredito que, por ser do Sul, existem coisas que se fazem presentes. Tipo, eu era muito obcecada por Juvenile, Outkast e Lil Wayne na sexta série. Era o que eu ouvia com as minhas amigas do time de basquete. O mesmo vale para TLC e Aaliyah.

Eu vi que você compartilhou uma playlist das suas referências para o álbum. Você poderia nos contar como Sade, Solange e Erykah Badu foram cruciais para o “Petals for Armor”?

Começando pela Solange, eu creio que sempre existiu esta forte consciência de que eu não me relacionava com várias das coisas que ela cantava, mas isso não influenciou na forma como ela me impactou artisticamente, pois é algo bom para c******. Suas músicas são ótimas. E foi incrível, para mim, apresentar os seus álbuns para o Taylor. Quando nós nos conhecemos, ele escutava basicamente bandas de rock pesado, enquanto eu, vindo do Mississippi, ainda não havia tido contato com aquela cena independente. Foi basicamente um ciclo se fechando, onde nossos mundos de colidiram novamente, pela primeira vez em muito tempo. Desta vez, estávamos inspirados nos álbuns da Solange, enquanto com o Paramore nos remetemos ao Jimmy Eat World, Failure e outras bandas punks. Foi bastante satisfatório para mim, enquanto artista, explorar outros domínios sonoros.

Estou feliz por ter mencionado Erykah Badu, pois não sei como eu havia me esquecido de mencioná-la antes. Ela é genial e se encontra em uma veia diferente; ela tem sido impactante. Para mim – uma mulher branca falando, então perdoe a minha ignorância – ela tem sido uma grande influência para a cultura negra e para as pessoas reconhecerem suas raízes. Novamente, é um dos casos nos quais eu escuto e penso “Oh, eu sei que não passei por isso, mas ainda assim eu aprecio”.

Quais comidas do Tennessee que você olha e pensa “Sim, isso só pode acontecer aqui”.

Eu tenho uma dieta majoritariamente baseada em plantas e estou constantemente procurando por coisas que eu amo. Cresci comendo várias comidas Cajun no Mississippi, receitas que a minha família do Louisiana passaram para a minha mãe. Estava conversando com ela na noite passada, dizendo: “Quando estou menstruada, irritada com o mundo e apenas querendo me sentir confortável, eu sinto vontade daquela comida do sul e preciso de ajuda, pois eu quero comer bem”. Falamos sobre as formas de se fazer camarão e grãos veganos, e que ela virá aqui assim que ambas nos sentirmos seguras. Eu estou voltando ao trabalho em meio à pandemia, mas vamos apenas curtir e falar apenas sobre a comida do sul. Toda manhã quando eu acordo eu faço grãos, com um pouco de queijo Kraft, manteiga, sal e pimenta. Todo dia. E quando as pessoas me dizem que elas fazem com açúcar, eu não sei o que dizer.

Atualmente, está acontecendo tanta coisa no sul, politicamente falando. O que este momento de revolta trouxe para você?

Uma coisa interessante foi a rapidez com a qual eu me apaixonei por política. Por crescer no sul, a política sempre foi um ponto de tensão – isso me assustava. Mas é incrível que, agora, com 31 anos, o universo me preparou para um momento como este – acordar e estar autenticamente apaixonada. E isso é apenas sobre o luto. É um tipo intenso de luto; uma empatia que eu nunca havia sentido antes. Mesmo sabendo que eu não posso sair dizendo que entendo como é passar por essa experiência, encontrei um lugar no meu coração que esta irritado pela comunidade negra como um todo. É um sentimento constante. Para ser específica, estou tentando encontrar uma abordagem com os pés no chão. Quais são as formas seguras de estar presente, ainda que não esteja fisicamente com a minha comunidade? Seja protestando, marchando ou me inteirando com coletivos locais como o DRKMTR, um grupo de jovens buscando alimentar a comunidade, tentando criar salas de aulas comunitárias e trabalhar com as restrições impostas pelo COVID-19. Tem sido maravilhoso vê-los contornando essa situação. Nós temos que descobrir como fazer isso da maneira mais sustentável. Acordar com raiva alguns dias e entender que existem formas de canalizar isso para fazer a mudança. Isso tem sido particularmente esperançoso para mim. Então é algo animador, ainda que eu esteja odiando este ano. Eu preciso dizer que o meu luto não tem nada a ver com o mundo. É apenas a vida real. Mas também tenho esperanças e sei que existem muitos lados positivos.

Como foi a decisão de dividir o álbum em três EPs?

Eu realmente queria lançar apenas uma música no começo. Não sabia que isso viria a se tornar um projeto completo. Para mim, era menos intimidadora a separação das coisas. Ser capaz de fracionar e entregar pequenas porções do álbum me fez sentir que as pessoas poderiam entender completamente os assuntos que estava abordando, as emoções que estava tentando transmitir. Eu gastei um ano me reprogramando e posso dizer que aquilo foi a primeira parte. Entrar novamente em contato com essa raiva justa e que é elemento central de tudo que viria a seguir. Na segunda parte, assemelho com o trabalho interno. Você planta as sementes e espera. Essa espera é árdua, mas é quando todas as coisas boas acontecem. E então existe o momento de você colher, que foi a terceira parte. Eu comecei a entender realmente de onde vinham estas visões conturbadas de relacionamento, amor e autossabotagem, e o que eu julgava que merecia e não merecia – aquelas coisas começaram a cair. Eu queria separar isso para que não precisasse expor tudo de uma vez, mas também para que as pessoas pudessem entender e enxergá-las diante dessa perspectiva.

Esse projeto parece ter sido fruto de um relacionamento entre você e seus amigos. Como vocês nutriram e criaram esse álbum juntos?

A arte é algo completamente sem significado sem uma comunidade. Não me traz o mesmo tipo de alegria. Assim que eu parei de tentar fazer tudo sozinha, percebi: “o que eu estou tentando provar com isso?”. Eu gosto de trabalhar com meus amigos e fazer m*****. Assim que isso aconteceu, as músicas começaram a surgir. Era algo muito racional e eu apenas queria uma experiência comunal e espiritual. Eis que Taylor e Joey se tornaram grandes jogadores nessa história e eu não seria capaz de fazer o álbum sem eles. Quando começamos a ensaiar, comecei a ouvir várias coisas que nunca havia ouvido antes. Comecei a trabalhar com Sarah K. Pedinotti do Lip Talk, e Akenya Seymour do Reservoir. Akenya é uma das melhores cantoras que eu já ouvi em toda a minha vida. Ser capaz de cantar com uma voz como aquela trouxe algo de dentro de mim que eu havia perdido há muito tempo. Sobre criar as coisas em tempo real. É palpável o que a comunidade cria quando fazemos parte dela. “Petals for Armor” só foi possível por causa da comunidade.

Têm existido várias demonstrações públicas de amor dos fãs negros. Isso é algo exclusivamente online, ou você havia percebido isso antes dos últimos anos de apoio online?

São os dois casos. Mas eu poderia dizer que, para mim, os fãs presentes nas plateias dos shows começaram a se tornar mais diversificadas perto do fim da era “Paramore”. Nós fizemos uma turnê chamada “Writing the Future”, logo após “Ain’t It Fun” ganhar o Grammy e estar em toda a parte no rádio. Foi uma volta da vitória louca, na qual fizemos shows em locais menores, com arranjos mais intimistas. Eu percebi isso quando tocamos em Baltimore, em um local onde nunca havíamos tocado antes. A plateia presente era metade branca, metade negra. Se tornou óbvio para mim que a plateia estava mudando. Eu cresci em Meridian, Mississippi, onde a população era bastante diversificada. Eu estava acostumada a estar perto de pessoas que não se pareciam comigo necessariamente. Então me mudei para Franklin, no Tennessee, que é uma cidade predominantemente branca, e continua sendo. E quando o Paramore saía em turnê, nós tocávamos para crianças punks e emo brancas. Como você escreveu, os negros não se sentiam confortáveis ou particularmente bem vindos naquelas situações. Naquela época, havia alguns vocalistas negros no cenário metal, como Howard Jones do Killswitch Engage, mas também era apenas isso. Eu sempre achei estranho tocar neste pequeno local cheio de crianças brancas e, em seguida, ir para a Califórnia onde tínhamos uma grande base de fãs que eram filipinos, pois participamos de uma turnê com o My American Heart, que eram filipinos. Mas tem sido legal ver que, finalmente, parece que aquele público que eu enxerguei se assemelha com o mundo no qual quero viver. Eu me emocionei muito na turnê do “After Laughter”, pois percebi que estava vivendo um sonho. Eu assistia ao filme “Stop Making Sense” do Talking Heads toda noite antes de dormir, enquanto estávamos criando o “After Laughter”. Vários dos membros do Parliament-Funkadelic estavam em turnê com o Talking Heads naquela época, em 1983, e eles mostravam a plateia no final do filme, uma verdadeira diversidade de pessoas. Eu estava emocionada naquela turnê, pois pensava: “P*** m****, isso é o ‘Stop Making Sense’”. Estava acontecendo e nós estávamos tocando a música que amamos para as pessoas que a amam, e elas se pareciam com o mundo ao nosso redor. Era aquilo que eu queria ver.

Eu quero que as pessoas negras apreciem a nossa música, pois quando a tocamos – como foi nessa conversa – o meu coração se engrandece. As minhas memórias de infância é ser uma criança crescendo no Mississippi dançando Outkast com a minha amiga Zakara, cantando D’Angelo com a Sheena, e jogando basquete com Rodney [Hood], quem eu acabei de descobrir que se tornou um jogador da NBA.

O que?

Ele é um jogador de basquete do alguma coisa Jazz [nota do editor: Hood jogou pelo Utah Jazz entre 2014-2018, seguido pelo Cleveland Cavaliers, em 2018-2019. Ele agora atua pelo Portland Trail Blazers]. Tenho 90% de certeza que ele me ensinou como fazer o crip walk na entrada de sua garagem. Eu me lembro de seus amigos dizendo: “Ah, você gosta de dançar…”. Não sei se ele se lembra disso. Nós gostávamos daquilo. E é isso que eu quero ver. Quero olhar na internet ou na plateia de um show e ver que existem pessoas de todas as raças convivendo juntas, fazendo suas merdas, rindo, dançando. Esse é o mundo que eu quero estar.

Lil Uzi Vert e Rico Nasty falaram publicamente sobre a influência do Paramore em suas músicas e em suas carreiras. Como tem sido perceber esse ressurgimento da estética emo/punk e ver grandes artistas trazendo isso de volta aos holofotes?

Eu me sinto sortuda todos os dias, pois sei que várias das bandas não tiveram êxito fora daquela cena. Somos sortudos – uma decisão diferente e poderíamos nem estar conversando agora. Eu me sinto agradecida e constantemente honrada de que novas pessoas continuam a descobrir nossa música. Quando postei a capa do “All We Know Is Falling”, dizendo que estava completando 15 anos, várias crianças disseram “Uau, eu não era nem nascido”. Isso é doido. Sinto-me feliz, pois mesmo que tenhamos nos tornado mainstream, há um mundo no qual existe a música independente, existe uma cena underground. E me sinto feliz, pois ela se parece mais colorida do que quando era mais nova.

Tradução e adaptação: equipe do Paramore BR / Fonte