Hayley Williams expõe sua vida pessoal ao portal Vulture

Em entrevista extensa e intimista ao Vulture, Hayley Williams revisitou alguns tópicos de sua vida até o atual momento em que se lança como artista solo. Ela detalhou sobre seu antigo relacionamento, traições, divórcios, traumas de infância, desentendimentos no Paramore e mais. Confira traduzido abaixo!

Quando Hayley Williams fundou o grupo pop-punk Paramore aos 15 anos, tudo que ela queria era estar em um banda com seus melhores amigos. Por um tempo, foi o que ela fez. Porém, conforme ela se tornava um ícone para os jovens emos, viajava pelo mundo e recebia certificados de platina pela venda dos álbuns com sua banda, o Paramore estava se desintegrando. A narrativa especulada pelo ex-integrante da banda, Josh Farro, e confirmada pela indústria musical, era de que Williams era uma líder arrogante.
“Bandas falam sem medo sobre odiar uns aos outros, mas você não imagina coisas como ‘Ah, Thom Yorke deve ser a porra do Hitler do Radiohead’”, diz Williams.
“Me pergunto se isso é por eu ser mulher. Se eu tivesse um pau, a história não teria ido pra frente”.
[Josh] Farro e seu irmão Zac deixaram a banda em 2010 e, com o passar dos anos, o Paramore passou por diversas mudanças em seus membros (Zac retornou em 2017). Depois de uma turnê em 2018, Williams decidiu que ela também precisava de uma pausa. Passava por um divórcio (era casada com seu parceiro de longa data, Chad Gilbert do New Found Glory, desde 2016) e sua depressão saiu de controle.
Ela se internou em uma clínica de terapia intensiva. Em 2019, começou o que ela jurava que nunca faria: escrever um álbum solo. Petals for Armor, lançado em três partes, no dia 8 de maio, é uma odisseia meditativa através do passado de Hayley e sua busca pela solidão criativa.
Por Skype, Williams debaixo de um cobertor com seu cachorro, Alf, que exige sua atenção, diz “Oi!”, sorrindo. “Bem-vindos à minha cama. Normalmente, leva uns 2 encontros antes de trazer alguém aqui.”

Com quem foi seu último rolê antes da quarentena?

Joey [Howard, baixista de turnê do Paramore e também co-escritor do Petals for Armor] e Mike Kluge, que cuida da parte visual para o Paramore. Fui à casa do Mike para falar sobre como seriam os shows ao vivo. Estávamos prontos para ensaiar. Foi um rolê longo. Pizza na sala de estar e uma enorme tela para vermos as ideias. Parece que foi há dez anos atrás.

Tem algo que você não tenha dado valor e se arrependeu agora na quarentena?

Tudo. Queria ter levado meu carro no lava-rápido – acho que estão fechados agora – só pra escutar música e sentar em um local que uma máquina estivesse fazendo algo por mim.
 
Recentemente, você adiou sua turnê para 2021. Acha que faz sentido lançar um álbum sem poder fazer turnê?

Eu sinto que tudo acontece do jeito que precisa acontecer. Às vezes, me sinto ridícula por ter lançado um álbum, acho que não sei lidar com as consequências que isso traz. A gente faz isso pela repercussão, seja ela uma resposta ou a compra de um ingresso para ir te ver. Ultimamente, precisava sentir que isso era algo saindo de mim. Como se eu estivesse grávida há muito tempo. Se eu tivesse adiado o lançamento, provavelmente estaria muito deprimida agora.

Você cuidou bastante da sua depressão com a terapia. Em 2018, escreveu no Paper que em certo ponto, desejou morrer. O que te fez escrever aquilo?

Por muito tempo, tive medo de falar sobre depressão. Quando escrevi isso, ainda não tinha sido diagnosticada. Sou uma pessoa esperta. Consigo pensar sobre o que estou passando, mesmo quando estou muito pra baixo. Muitas pessoas com ansiedade ou depressão são intelectuais e entendem o que está acontecendo, mas é maior que isso. É um problema patológico. Percebi o quão fora de controle estava. Era importante falar sobre. Me deparar com isso foi um divisor de águas.

Quem comentou sobre isso?

Pessoas próximas de mim e que não entendiam tudo. Tudo o que estava acontecendo até o verão de 2018 –  um dos momentos mais lindos da carreira da banda – era um aquecimento. Estávamos aprendendo a nos comunicar uns com os outros de maneira adulta. Foi um bom começo para mim. Quando escrevi para o Paper, já estava abrindo esses sentimentos para minha família. Agora, quando minha amiga Bethany [Cosentino] do Best Coast liga e ambas estamos passando por algo difícil, falamos sobre opções: o que temos e como contornar a situação. Mesmo se a gente só precisa desabafar.

O que há de tão poderoso em desabafar?

Ser uma mulher na indústria musical  não é uma conversa que eu gosto de ter, normalmente. É apenas a minha existência. Seria como se uma pessoa perguntasse para outra: “Como é ter mamilos?”. Eu não sei, eu sempre os tive. Mas, depois de passar pelas coisas que passei, percebi o quão sozinha estive por muito tempo, porque eu não conseguia compartilhar as minhas fraquezas com as pessoas. Você fica bem seletivo com aquelas que quer colocar em uma canção. A raiva foi minha guia por muito tempo. E quando falamos sobre o que está por debaixo dessa raiva, é uma merda assustadora. Colocar partes disso por aí me tornou mais empática e conectada com minhas colegas artistas. [Cantora e compositora de Nashville] Julien Baker e eu tivemos ótimas conversas que me fizeram compreender profundamente as coisas de um ponto de vista diferente. Sempre tive acesso a essa comunidade de pessoas que precisam umas das outras. A vida da Jullien é muito diferente da minha. Ela cresceu no Tennessee e tem ansiedades com as quais eu nunca tive que lidar. Muitas delas são inatas à experiência de ser uma mulher nesse mundo e também na cena musical. A empatia compartilhada que nós temos uma pela outra é como fazer parte de um culto que eu não sabia que existia. Eu tive que encontrar a porta e sussurrar a palavra secreta. Eu precisava ser vulnerável de uma nova maneira.

Bethany Cosentino havia utilizado raiva como guia no passado, também. Existiram momentos de esclarecimento entre você e ela, sobre questões de saúde mental?

Existem muitos momentos de esclarecimento com a Bethany. Nós fizemos turnê juntas, no meio de términos de relacionamentos longos. Lutamos contra diversos tipos de ansiedade. Coisas hormonais, pele. Temos uma série de mensagens de texto que é basicamente “Acne Anônimos”. Duas noites antes dela ficar sóbria, estávamos jogando em um casino. Jantamos no hotel, tomamos uma garrafa de vinho, comemos muita massa e falamos sobre as merdas que estávamos vivendo — como não tínhamos ficado sozinhas há muito tempo, mas estávamos solitárias há tanto tempo, como era estar em turnê. Best Coast estava abrindo para o Paramore, mas o quarto de hotel dela era mais legal que o meu. Eu fiquei tipo “Puta merda! Eu vou passar a noite aqui!”. Nós ficamos no quarto dela e fizemos máscaras faciais. Assistimos Shark Tank. Tive uma ressaca enorme no dia seguinte. 
Somos sortudas. Temos caras incríveis em nossas bandas. Estou em um momento agora onde se alguém não é feminista, homem ou mulher, eu já fico meio “Então o que você é?”. Eu queria que isso não tivesse que ser uma palavra — feminismo. É simplesmente senso comum.

Houve algum ponto em que você não gostasse da palavra feminismo?

Sim. Eu acabei de falar com a Alicia [Bognanno] da [banda punk de Nashville] Bully sobre isso. Durante muito tempo, pessoas nos perguntavam sobre ser mulher. Quando eu tinha uma oportunidade, pensava Eu não mereço isso ou É apenas porque eu sou uma mulher, ou Quero diminuir isso, para não me destacar dos rapazes. Eu não quero ser tratada de forma especial. Também não quero ser tratada como porcaria. Ela começou a fazer turnês [quando ela era] um pouco mais velha que eu [quando comecei]. As coisas que ela teve que aguentar enquanto mulher nos seus 20 anos é obsceno. Pessoas falando [para ela] “Com quem você está transando?” ao entrar em uma casa de show. Eu tinha 16. As pessoas pensavam que eu era a garota que vendia merchandising. Eu parecia ter 12 anos. Eu não estava transando com ninguém, entende o que eu quero dizer?

Paramore tem quase 2 décadas de vida. Assistindo velhos “websódios” que a banda fez, você sempre foi a única mulher em espaços masculinos. Não é um mundo glamuroso. Existiu algum momento em que te disseram que você era difícil de lidar?

Não. Eu me certifiquei de que eu nunca seria assim. Eu ouvi merda por não usar brilho labial em uma sessão de fotos. Chapstick [marca de brilho labial]. O fotógrafo queria que eu tentasse e eu falei algo como “os meninos não estão fazendo nada, eu não vou fazer merda nenhuma!”. A primeira vez que nos ofereceram a Warped Tour [em 2005], era algo muito esperado. Nunca tinha ido, era muito nova e não era autorizada. Eu e os rapazes nunca tínhamos escutado pop punk antes de escrever “Pressure”. Nós ouvíamos coisas mais pesadas como Deftones. Queríamos ser mais obscuros. De repente, escrevemos “Pressure” e foi isso — nós iríamos escrever hits emo. Dahora! Fiquei empolgada que isso aconteceu. Por fim, o tipo de atenção que estávamos recebendo era diferente. Eu não sabia o quão tóxico esse mundo poderia ser.

O mundo Warped?

A cena pop-punk e emo no início dos anos 2000. Era brutalmente misógina. Muito machismo internalizado e até quando você dava sorte de conhecer outras bandas que eram gentis e respeitáveis, haviam outras merdas. Fiquei muito mal-humorada. Nos ofereceram a Warped tour e havia uma ressalva: “É um palco chamado Shiragirl. Apenas mulheres.” Fiquei irritada! Queria ser qualificada para um palco de verdade. Quando me ofereciam oportunidades para mulheres, parecia um insulto. E as pessoas, às vezes, pensam que isso é antifeminista, o fato de eu não querer ser colocada com um monte de meninas. Como uma garota de 16 anos que tinha sonhos de tocar com os caras grandes, parecia que nós éramos menosprezados. Aquele verão saímos e eu nunca vou esquecer [isso]. Nós tocamos na Flórida e o palco era um caminhão que tinha uma carroceria. Acho que só tinha mais outra banda [além de nós] com uma vocalista [na turnê], as pessoas estavam boquiabertas, mas não de um jeito pervertido. Eles estavam confusos, tipo “O que tem aí para mim? Sobre o que ela está cantando? Eu sou um cara — como que eu me identifico?”.

Você pensa que essa foi a abertura?

Eu propositalmente escrevi sem pronomes por anos por causa disso. Então eu fiquei tipo, Foda-se, eu não me importo. Algumas coisas não têm pronomes, mas quando é minha experiência, terá. Tivemos que nos mostrar capazes, diversas vezes. Eu cuspia mais longe, gritava mais alto e mexia meu pescoço mais forte do que qualquer um. No verão seguinte, passamos para um palco um pouco maior. Foi o ano da porra dos preservativos.

O ano dos preservativos?

Cara, sim. Verão dos preservativos, 2006. Em 2006 os patrocinadores da Warped Tour incluíam a marca de preservativos Trojan. Jogaram preservativos em mim. Em 2005, eu vesti camiseta todos os dias. Em 2006, eu estava um pouco mais confortável. Vestia regatas, mas meu peito estava exposto. Nós estávamos em San Diego ou São Francisco e um preservativo voou até mim e grudou no meu peito enquanto cantava. Fiquei super envergonhada. Comecei a falar merda porque eu era jovem e arrogante. Não acho que errei. É que eu tenho mais ansiedade agora, do que quando eu tinha aos 16. Eu era bem mais confiante. Confiante a ponto de ser ignorante. Depois, fizemos uma turnê com uma banda e estávamos no ônibus deles, até que um dos amigos presentes disse algo sobre a minha buceta. Na minha frente. E– 

Um dos amigos de quem?

Eles ficaram envergonhados. Eu não quero entregá-los. Não era uma banda grande — uma das de abertura.

O que disseram?

Eu não consigo me lembrar o que esse cara disse porque eu fiquei irritada tão rápido, mas lembro que se referiu à minha buceta. Eu tinha literalmente 16, perto de fazer 17 anos. Todo mundo ria. Ninguém prestou uma porra de atenção. Fiquei tipo “Por que você acha que é legal se referir à minha buceta?”.

Quantos anos ele tinha?

Perto dos 30. O cara e a menina que estavam na banda… Foda-se. A banda era Straylight Run. Uma banda emo da costa leste que lançou dois álbuns na metade dos anos 2000 — um dos caras do Taking Back Sunday e a irmã dele. Ela foi a minha salvação. Era a primeira vez que eu fazia turnê com uma mulher. Ela era bem mais velha que eu. Mas o John [Nolan do Taking Back Sunday] estava bem irritado. Uma vez que eu falei como eu me sentia e tornei isso real, foi como se eu tivesse criado um buraco: Ah, claro, isso não está certo. Eu era muito mais ousada quando tinha a oportunidade de me defender porque a internet não era o que é hoje. E apenas dois anos depois, fui completamente silenciada. 

Silenciada como? Você parou de brigar sobre suas experiências com machismo?

Eu falava alto sobre coisas que eu pensava que poderia ganhar: injustiças abertas contra a minha feminilidade ou a banda. Haviam coisas na imprensa que eram erradas. Eu odeio me sentir mal interpretada. Começavam a falar sobre algo que conversei com Zac na van, a caminho do show; os jornalistas presentes entendiam tudo errado sobre o contexto da nossa amizade. E quanto mais eu ficava confusa sobre quem eu era, mais quieta ficava. Não tenho certeza se a confusão veio dessa imagem minha na imprensa ou se isso era por decisões pessoais que estava fazendo e estavam me tirando do eixo. Ou se era uma perfeita tempestade de ambos. 

Paramore é uma banda há 16 anos no meio de drama e mudanças de formação. Os comentários de Josh Farro ao público quando ele e seu irmão Zac deixaram a banda em 2010 montou uma narrativa de que você era uma líder tirana que ninguém queria trabalhar. Nós podemos interpretar aquilo agora, como machismo.

Obrigada por dizer isso. Eu acho muito interessante que bandas que nós amamos que passaram por mudanças de formação — até mesmo as que não passaram — foram honestas sobre o quanto eles se odeiam e você nunca questiona sua lealdade. Você nunca pensa Ah, Thom Yorke deve ser a porra do Hitler do Radiohead. Ele pode ser um babaca. Eu me pergunto se isso é só porque eu sou uma mulher. Se eu tivesse um pau, a história não teria ido pra frente. Por muito tempo fiquei furiosa. Agora eu olho para trás e penso que nós precisávamos que aquilo acontecesse. Precisávamos arrancar as infecções. Derramar sangue.

Então a saída do Josh foi necessária?

Sim, ele fez as incisões sozinho. Aquilo foi tão doloroso. Mas a toxicidade entre nós cinco? Nem éramos mais amigos naquela altura. Agora, quando eu me encontro com o Josh, eu quase não sinto nada. Nenhuma parte de mim se sente provocada.

Você sente algum amor por ele agora?

Sabe o que eu sinto? Se eu posso me lembrar bem, isso é o que o [guitarrista] Taylor [York] e eu dissemos ao Josh quando nos esbarramos em uma cafeteria. Nós dissemos “Fizemos algo que foi muito louco e inacreditável. Um dia nós estávamos na escola juntos. No minuto seguinte, estávamos em Wembley!”. Wembley foi uma merda. Bastidores? Terrível.

O que aconteceu?

[Pausa] [Josh] me perguntou quanto eu achava que ele valia monetariamente.

Como você reagiu? 

Eu olhei pra ele e disse “Eu não sou boa com números. Você tá brincando comigo? Não me pergunte isso”. Ele [Josh] sabia que eles [Josh e seu irmão Zac] iriam sair, que esse era um dos seus últimos shows. Ele estava tentando resolver se ele ia tomar ações legais contra nós para ser dono do nome ou… Eu não lembro tudo que ele estava brigando, mas ele acabou não fazendo isso. Não é fácil brigar com seu amigo. O que eu prefiro acreditar é que houve um momento em que ele percebeu que não valia a pena. Largaram tudo. Foi uma merda. Você não pensaria que sairia disso. E [o Paramore] fez dois álbuns desde então que são os melhores que já fizemos. 


A princípio, seu contrato com a Atlantic em 2003 era como estrela solo, mas brigou com a gravadora para seguir o seu objetivo de estar em uma banda. Você compreendia as consequências de ser o único nome no contrato?

Não. Eu pensei que era mais esperta que todo mundo. Tinha 15 [anos] na época. Me pergunto quais palavras eu usei, por que eu não tinha a perspectiva que eu tenho aos 31. Nós tínhamos essas músicas que a gravadora gostava mais do que as músicas que eu tinha escrito sozinha, mas o selo queria que elas fossem lançadas como Hayley. Eu não queria isso. Eu falei para a [então presidente da Atlantic] Julie Greenwald que eu não queria lançar música ou fazer entrevistas no meu nome. Existiram conversas acaloradas com a equipe de pessoas com o qual eu disse que eu ficaria feliz de apenas tocar essas músicas no porão do Taylor pelo resto da minha vida. Foi um momento muito empoderado. Minha voz estava trêmula. Eu estava chorando. 

Uma reunião de diretoria?

Isso, advogados e o caralho, tinha um tipo de leilão acontecendo. Foi no início dos anos 2000. Avril Lavigne era grande pra porra. Kelly Clarkson estava em seu salto alto tentando fazer pop agitado. Ashlee Simpson tinha assinado contrato com Geffen e era pop punk. De repente, me tornei uma possibilidade para uma gravadora. Meu pai e minha mãe queriam que eu fosse inteligente. Eles não queriam que eu deixasse isso passar. Eu teria que falar com eles e então com os meninos e ser tipo “eu não sei!”. Eu não queria fazer isso como Hayley. Fui meio “Vocês são a única gravadora a entender a banda, então vamos encontrar uma forma de fazer isso funcionar”. Naquele tempo encontramos o nosso empresário, Mark [Mercado].
Eu realmente pensei que um contrato não importava. Em diversas maneiras, não importa. Eu estava com tanta vergonha de mim mesma por ser o único nome no contrato. Mais tarde o Mark disse “Aqui estão todas as bandas onde apenas uma pessoa assinou”. Eu não vou listá-los. Eu não vou ser dedo duro. Mas não é grande coisa. Meu ponto era “Mark, apenas tenha certeza de que todos estejam seguros”. Eu não quero saber de contratos. Isso nunca importou para mim. Eu estava tão envergonhada de mim mesma por ser o único nome no contrato. Nunca falei sobre isso. Ainda não sei como me articular sobre isso. Sinto como se a parte de mim que fala disso ainda tivesse 15 [anos].

Você se sentia uma impostora.

O que mais me incomodava era ver as pessoas nos jogando um contra o outro, como se eu estivesse bolando um plano maluco. Eu tentei bolar coisas como “Vou foder com a Atlantic Records! Isso vai virar uma banda sim!”. O que aconteceu foi ótimo. A Fueled by Ramen estava trabalhando com a Atlantic e queríamos uma gravadora daquele tipo. Eu não queria lançar músicas que escrevi com meus companheiros de banda, mas gravei sozinha. Irônico, pois é o que estou fazendo agora! 
A canção Conspiracy é sobre isso. Me senti perdendo as forças. Todos estavam contra mim. Eu só tinha meus amigos da banda e mesmo eles olhando pra mim de um jeito “Não estamos nessa juntos?” e eu “Mas estamos”. Mas é assim que acontece. Quando tem muita gente fofocando, todos começam a achar que tem algo rolando. E isso foi aumentado na imprensa. Principalmente quando fomos ao Reino Unido pela primeira vez.

A imprensa do Reino Unido tem um certo prazer em desintegrar bandas amadas.

Meu Deus, sim. Vamos falar a real. Se não tivesse todo esse drama idiota por tantos anos, será que as pessoas ainda iam lembrar da gente? Será que aquilo não nos ajudou durante nossos anos mais parados? Não sei. Não estou tentando voltar atrás para consertar.
O After Laughter foi um momento tão gostoso. Principalmente para mim e minha depressão. Aproveitamos a companhia um do outro, conversamos bastante. Zac [Farro] contou pra gente como ele estava se sentindo antes de sair da banda. A gente não se falava fazia, tipo, seis anos.

Não se falavam mesmo?

Mesmo. A primeira vez que falei com ele [depois da saída] foi durante uma turnê que fizemos em Auckland, durante a era Self-Titled [2013]. Zac estava morando na Nova Zelândia. Aquele era o território dele. Enquanto isso, eu tentava processar a situação. Percebi que não estava mais brava. Sentada no meu quarto de hotel, refletindo, vejo um comercial na TV sobre um festival. A banda do Zac, HalfNoise estava no lineup. Me surpreendi e fiquei muito orgulhosa. Do nada. Seis anos se passaram, mas eu pensei “É isso aí, caralho! Esse é meu garoto, Zac.” Lembro-me dele fazendo demos na van, no GarageBand [software de produção] e agora ele estava em um festival na Nova Zelândia, por conta própria. Procurei o e-mail dele e escrevi: “Vi você na TV. Só queria dizer que estou muito orgulhosa.” Isso quebrou o gelo.

Como ele respondeu?

Ele foi muito gentil, tipo, “Não posso assistir seu show, mas também estou orgulhoso de você e sinto sua falta.” Mesmo assim, a gente não se encontrou por um tempo. Foi só quando entramos em estúdio para o After Laughter.
Eu estava bem nervosa com a situação. Foi algo tão positivo. Eu, Taylor e Zac, reunidos novamente em uma sala. Era com eles que eu saía quando era jovem, com 13 ou 14 anos e tinha uma queda pelo Josh, mas não era recíproco. Ele tinha uma namorada, a garota para a qual escrevi  Misery Business porque eu era uma babaca. Enfim, eu estava me encontrando com o Taylor e o Zac. A gente entrava no Instant Messenger para zoar. É surreal que eu ainda toco com eles, e ainda mais surreal que somos amigos ainda.

Com a amizade retomada, vocês saíram em turnê com o After Laughter no meio do seu divórcio. Como foi voltar pra casa depois que a turnê acabou?

Não tinha pensado no que ia acontecer com meu cachorro. Fui embora porque era muito doloroso manter o equilíbrio em meio a voz ensurdecedora do fracasso. O divórcio dos meus pais foi um divisor de águas para mim. Ainda tento encontrar novas maneiras de melhorar. Cheguei em casa em agosto ou setembro [2018] do After Laughter. Fiz um post no Instagram, voltando do Japão, assim “Estou pronta para retornar e me curar de verdade.” Acho que eu nem sabia o que estava dizendo. Se eu soubesse o que “me curar” significava, eu jamais ficaria ansiosa por isso. Eu ia é querer agendar mais uma turnê. Cheguei em casa e passei uma semana nas nuvens – terminamos o ciclo desse álbum, que beleza! – Então percebi que não queria ficar dividindo meu cachorro.

Pressuponho que você precisava ver seu ex regularmente para fazer isso, certo?

Sim. E não tem como superar dessa forma. Olha, talvez alguns casais consigam. Mas a gente, não. Precisei de terapia. Estava tendo sonhos horríveis. Ainda tenho. Agora penso que esses sonhos são o jeito do meu corpo de processar isso, para que minha consciência não precise fazer isso diariamente. É como se estivesse ajeitando as coisas.

Como são estes sonhos?

Eles são fodas. Geralmente, tem água neles. Por isso sempre escrevi sobre relacionamentos usando metáforas com água. Tenho um sonho recorrente da minha infância que também tem água envolvida. Comecei a tê-los novamente. O resultado foi síndrome do pânico, eu ia parar no hospital porque chegava a desmaiar.

Quando foi isso?

Final de 2018. Foi um aprendizado lento pra mim – como nossas emoções atuam na saúde física – Isso aconteceu porque eu estava em negação. Encontrei uma clínica onde poderia me internar para ficar segura. Foi então que me diagnosticaram com depressão e EPT (Estresse Pós-Traumático). A terapia acabou sendo mais eficiente pra mim do que as medicações. Agora, eu não nego o que sinto ou o que passei com minha mãe e outras mulheres da família. As experiências delas não foram resolvidas.

O trabalho te ajudou a entender o porquê do divórcio ou aspectos do seu casamento?

Bom, isso é fácil. Continuei no casamento por vergonha dos erros que cometi. Fui precipitada ao entrar nesse relacionamento. Ele ainda não tinha se divorciado [da esposa anterior]. Me sentia bem sozinha. Foi quando eu e os meninos da banda começamos a nos desentender. Comecei a fazer escolhas erradas: correndo e procurando por uma porta. Dez anos tentando se redimir dos erros grotescos que cometeu vão te levar a muitas portas, até o fundo do poço.

Qual foi o erro? Começar um relacionamento com ele enquanto ele ainda estava com alguém?

É. Me senti impotente e envergonhada. Como se a única maneira de sair da situação fosse permanecer nela. Tentei sair com outras pessoas, mas acabava me sabotando. Conversei com a minha mãe e ela perguntava “O que tem de errado com você? Por que faz isso? Não vai me dizer que é por causa do divórcio.” Ela começou a me contar sobre como foram meus primeiros meses depois de nascer e como era a vida durante um divórcio. Meu cérebro tinha 4 ou 5 anos de idade. Não conseguia lembrar. Minha memória era de portas batendo e de repente eu estava com apenas um dos meus pais e não recordo com quem era. Queria consertar os erros dos meus pais nos meus relacionamentos. Com meu ex, me senti assim: “Finalmente alguém me escolheu.” Minha mãe se sentia assim nos relacionamentos dela. Ao primeiro sinal de perigo, eu dizia “Vou me redimir por eles.” Não importa se alguém foi infiel, não importa se eu surto o tempo todo, sou forte suficiente, vou consertar isso. Minha mãe é assim. Meu pai é uma pessoa muito doce. Só que eles eram muito jovens quando se conheceram. 
Comecei a re-encenar as piores partes do relacionamento deles.

Seu último single “Dead Horse,” fala sobre ser ‘a outra mulher’ e como, consequentemente, foi você que acabou sendo traída. 

Cantar sobre isso foi como pode fazer um buraco em uma sacola de plástico para respirar. Eu tinha muita vergonha por ser ‘a outra mulher’, por ser traída, por ter ficado. A canção é direcionada pra mim mesma. Não era como se eu estivesse lá pensando “Me machuque, vai ser ótimo.” Porém, fiquei bastante tempo. Fiquei diversas vezes. Acho que mereço mais que isso, sabe? Não sei o que vai ser necessário para me livrar da vergonha, mas talvez isso se torne algo que me ajuda a ter compaixão e evita a negação.

Traçaram um paralelo entre como você se expressa sobre infidelidade e como a Fiona Apple fala sobre isso em seu novo álbum Fetch the Bolt Cutters.

Aquela música “Newspaper” é desse álbum? Escutei esta música e pensei “Sou eu, estou passando por isso.” “Under the Table” também mexeu comigo. Escuto a voz dela cantando aqueles versos toda vez que leio algum comentário sexista de um homem velho e branco.

Em sua entrevista para a Vulture, Fiona fala sobre ser ‘a outra mulher’ também. Ela disse: “Primeiro, senti meu ego inflar. Porém, nunca parei de sentir nojo das memórias e penso que isso se deve ao fato de que nunca me desculpei para a mulher.”

Nossa. Okay, bem, não quero me abrir muito, mas digo que que consegui me redimir – após meu divórcio, por conta da gentileza da outra pessoa – Não quero expô-la porque não seria justo. 
Sobre a Fiona, não sei quando isso aconteceu para ela. Imagino que, se depois de tanto tempo, ela ainda não consiga pedir desculpas, deve ter sido algo muito terrível. Entendo esse sentimento. Eu demorei muito mais do que esperava, mas conseguimos nos entender. A pessoa que magoei quando fui ‘a outra mulher’, naquele momento, era a única pessoa no mundo todo que poderia entender minha dor. Eu era traída e me sentia sozinha e idiota. Considerar que, em certo momento, a gente estava em lados opostos, isso é muito interessante.

Fazer as pazes com a mulher que ele traiu inicialmente te ajudou a se curar depois de ser traída?

Sim. Quando você é traído, o mais difícil de entender é que não tem a ver com você. É sobre quem traiu. Para mim, fazer as pazes foi como dar descarga em todo esse veneno que flutuava ao meu redor. Me ajudou a deixar de lado, porque o único motivo de eu ter ficado foi para me provar que eu não era uma pessoa ruim.

Sua voz sempre foi sinônimo da ira emo. Em “Simmer,” o single de estreia do Petals For Armor, parece mais calmo. Me lembrou um pouco Radiohead.

O After Laughter era bem dançante. Músicas alegres, porém bombásticas. Como se estivesse borbulhando. Só que era como se a gente precisasse sussurrar para que a merda não fosse jogada no ventilador. Os sons que escolhi não têm que soar raivosos para que eu consiga expressar esse sentimento.
A maneira com a qual [Thom Yorke] procurar novas ferramentas me inspira e também ajuda a ter coragem. O Debut da Björk foi impactante. Também escutei Sade e Erykah Badu.

Esse projeto te ajudou a se sentir mais livre para usar sua voz de outra maneira?

Nossa. Sim. Não tinha pressão para que soasse com antes ou para que eu fosse reconhecida. Cada música foi um processo diferente. “Cinnamon” começou comigo tocando bateria. “Simmer” começou comigo imitando sons em um microfone. Não tinha um mapa para que minha voz soasse com o que estávamos usando. Me sinto no controle quando posso dizer “sim” ou “não” calmamente, mesmo que tenha muita coisa acontecendo. Passei anos da minha carreira e da minha vida tentando gritar para paredes, tentando impor minha visão para pessoas que não ligavam para ela. Agora, noto que não há poder nisso. Nem movimento. Agora, posso me posicionar, sem ter que provar nada. Tenho mais convicção. E isso faz com que minha visão seja compreendida.

Quando percebeu que você precisava mais dessas canções do que o Paramore?

Bem, o Paramore concordou em tirar um tempo. Quanto finalizamos a era Self-Titled [2013], estávamos um caco. Ganhamos um Grammy, mas não ficamos felizes. Taylor é o único membro que nunca deixou a banda. Entre gravações, ele sempre foi o único que não parava de trabalhar. Eu disse a ele, “Chega, amigo. Nunca mais vamos fazer isso. Não precisamos disso.” Conversávamos pelo telefone enquanto passava o VMA da MTV e eu disse “Isso é uma merda, cara. A partir de agora, de que importa o que nos prometem se a gente nem quer isso de verdade?” Fizemos um acordo, iríamos fazer tudo de outra maneira. Aí eu tentei sair da banda porque estava passando por um momento turbulento. Foi então que escrevemos o After Laughter, eu estava mal.
Finalizando o álbum, disse ao Taylor, “Me prometa que vai falar quando não se sentir bem.” Na gravação do clipe de Rose Colored Boy a família dele teve uma grande perda. Ele pediu para mim e para Zac que tirássemos um tempo depois do ciclo de turnês e concordamos. Levei isso a sério. 
Quando notei que estava escrevendo esse disco, pensei “Vou criar um perfil no Spotify e tacar ele lá.” Como se fosse fácil assim. Aí, mais duas canções apareceram e Taylor disse “Quando é que você vai contar pro nosso empresário que está fazendo um disco?” Eu disse, “Mas eu não estou!” E ele disse “Você está sim.”

Teve medo de contar à gravadora?

Claro. Quando você conta pra gravadora, se torna real. Você embarca na jornada. 

Tinha medo de ser uma artista solo?

Sim. Ainda tenho. Não quero ser. Nunca serei. Estou em negação. Taylor e Zac estão trabalhando em seus próprios projetos. Estão felizes que soubemos nos desgrudar. Foi um bom exercício pra gente. Mas estou assustada. Não é algo que eu prefira. É mais uma necessidade. Tem dias que acordo e desejo nunca ter começado. Espero que mesmo assim, seja um bom ano.

A letra  “Nothing cuts like a mother” em “Simmer” é sobre você?

Sim e não. Eu obviamente não sou mãe.

Você meio que é.

Do Paramore? Tenho trabalhado isso na terapia ultimamente. No fato de que com divórcios, as crianças se sentem órfãs. Não importa o quanto os pais tentam ou o quanto amam os filhos, a gente se sente órfão. Quando eu era jovem, me via nas histórias do Peter Pan. Na terapia, estou aprendendo que tentei ser como a Wendy para atravessar minhas cagadas o tempo todo. Minha família são os meninos da banda. Daquele ponto em diante, sempre que estávamos na estrada, eu tentava cuidar deles. Me sentia responsável pela equipe. Mas quem cuida de mim? 

Adoraria ser mãe, um dia. Só que eu ainda estou aprendendo a ser mãe de mim mesma. Tenho dificuldade de aceitar minha versão jovem que se sentiu abandonada e não mereceu tudo que aconteceu com ela. Sei que soa como se eu guardasse mágoas dos meus pais. Mas eles são extremamente gentis um com o outro. Eles amadureceram. Mesmo assim, me senti abandonada. 

Ao olhar pra trás, para a Hayley de 16 anos, como você agiria se fosse mãe dela?

Não sei se seria possível, para uma garota de 16 anos, não ligar para o que os outros dizem, mas gostaria de blindá-la disso. Meus pais não sabiam no que a gente estava se metendo. As pessoas falavam sobre como éramos jovens, mas nos tratavam como se tivéssemos idade para lidar com tudo. Não era algo natural pra nossa idade. Penso no que falaria para meus filhos. Eu diria: “Tome esses suplementos, tome magnésio todas as noites. Ajuda pra caralho, cara. Você tem 16 anos e esses sentimentos não vão desaparecer.” Na época, era quase impossível aprender soluções práticas para uma vida tão não-prática. Tenho dificuldades de ser leve. Dou entrevistas e me sinto pesada. Sempre penso, Deus, eles devem achar que eu não sou divertida. Porém, isso faz parte da vida que eu escolhi e é duro. É como se estivesse na porra da superfície descobrindo tudo agora.

Tradução e adaptação: Paramore BR