Rolling Stone: “Hayley Williams não tem mais medo”

Em mais uma entrevista intimista, Hayley se abre para a Rolling Stone a respeito das circunstâncias que a levaram a enfrentar a depressão e a compor o seu novo álbum solo, Petals For Armor. Hayley também adiciona algumas informações a respeito de uma nova música ainda não lançada, “Dead Horse“. Confira a tradução na íntegra:

Hayley Williams, fotografada em NYC em fevereiro. Valerie Chiang para Rolling Stone.

Na primavera de 2017, Hayley Williams se mudou para a primeira casa onde ela morou sozinha. No início daquele ano ela tinha finalizado a gravação de After Laughter, seu quinto álbum com o Paramore e terminado com um parceiro antigo, guitarrista do New Found Glory, Chad Gilbert. “Metade de mim estava muito atraída pelo romantismo dessa artista que tinha tido sucesso, mas agora está vivendo sozinha em um chalé de uma pequena cidade e tem essas aranhas grandes pra caralho e morcegos”, Williams fala rindo enquanto tomava chá no Hotel Bowery em Nova Iorque. “A outra metade é que eu estava realmente solitária. Eu tinha muita vergonha, porque percebi ‘Uau, você tem 28 [anos] e você nunca cuidou de si mesma.’”

Williams passou metade da vida dela em um estado de caos organizado, fazendo turnê, gravando e fazendo turnê de novo. Logo após sua mudança, ela voltou para a estrada com o Paramore, outra distração antes que o real acerto de contas pessoais acontecesse.

“[After Laughter] me ajudou a aceitar que havia um monte de merda borbulhando debaixo da superfície e que eu provavelmente teria que eventualmente responder”, ela diz. “Mas isso não aconteceu até nós sairmos da estrada no final de 2018, que eu percebi o quão ruim isso estava”.

Transparência não é fácil para Williams. Agora aos 31 [anos de idade], ela passou a maioria dos seus anos de formação crescendo e aprendendo aos olhos do público e encarando uma base de fãs muito apaixonada. Paramore começou quando ela tinha 15, alguns anos após o divórcio de sua mãe que as levaram a mudar do Mississippi para Franklin, Tennessee. Uma vez lá, ela conheceu os irmãos Josh e Zac Farro, que respectivamente se tornaram guitarrista e baterista da banda. Juntos, eles pegaram uma onda momentânea de pop punk e emo, alcançando  reconhecimento no meio dos anos 2000 e Williams se tornou a mulher mais bem-sucedida em um mar de homens com delineador.

Agora, com a banda em um pequeno hiato, ela está embarcando em sua mais assustadora e solitária jornada até o momento: seu lançamento solo Petals for Armor. “Essa é a primeira vez que estou vendo meu nome em todos os lugares e isso meio que me dá um pouco de ansiedade”, ela diz, mencionando um outdoor da Times Square que ela viu antes da nossa entrevista. “Meu nome não parece como um nome para mim, [um nome] que você fosse ver em letreiro. Eu também sinto que Paramore é metade, senão mais do que eu sou“.

Williams inicialmente assinou com a Atlantic Records ainda na adolescência como artista solo apesar de nunca ter lançado um álbum como tal anteriormente. Como o Paramore estourou, ela se tornou uma cantora procurada e convidada para canções do Zedd (“Stay the Night”) e do B.o.B (“Airplanes”). Mas ela sempre investiu em ser anunciada como “Hayley Williams do Paramore” nessas músicas. “Eu queria promover a banda através dessas oportunidades”, diz ela.

Petals for Armor começou em sua casa sem mobília e possivelmente assombrada em Nashville, após a turnê de um ano do Paramore em teatros e arenas com o After Laughter. Williams tinha planejado tirar um tempo de folga, mas sua terapeuta a encorajou a começar a escrever novamente. “Ela sempre dizia ‘Não julgue o que você está sentindo’”, a cantora conta. “Eu tenho a tendência de fazer isso“.

Williams se viu escrevendo sobre o impacto da separação dos pais dela em seus relacionamentos, as várias formas de abuso que as mulheres em sua família vivenciaram (Simmer) e a casa assustadora que ela aprendeu a amar (Cinnamon). Logo, ela começou a sentir como se ela tivesse encontrado a catarse de uma vida inteira de depressão e erros. “Eu senti como se isso devesse viver em outro lugar, caso contrário não teria a sensação de ter liberado isso de mim”, ela diz.

O assunto mais sensível no álbum é a forma como seu relacionamento com Gilbert começou, quando ela tinha 18 e ele ainda estava em um casamento anterior. “Em ‘Dead Horse’ eu admito ter um affair — foi assim que eu comecei a minha relação mais longa”, ela conta. “Eu senti vergonha durante todos os meus 20 (anos) por isso, mas ter a possibilidade de admitir tornou isso menos assustador. Isso não me controlava mais. Isso dá às pessoas a chance de me conhecer de fato e decidir se eles gostam de mim ou não”.

A culpa que ela carregou causou problemas de saúde para Williams. É difícil para ela olhar para fotos de quando ela tinha 18 e “ver a diferença em meus olhos”, como ela descreve. Aqueles sentimentos de vergonha afetaram como ela lidava a exaustiva agenda de turnê e ela diz que eles “puseram uma barreira” entre ela e o resto do Paramore desde o começo.

“Nós literalmente crescemos juntos”, ela fala sobriamente. “Nós passamos por tudo juntos. 
De repente eu não podia falar com eles. Eu senti como se eu soubesse o que eles diriam sobre mim”.

Naquele momento, a banda já estava com dificuldades em se ajustar com a fama que haviam ganhado com o single Misery Business e o álbum de que ele veio, Riot!.

“Nós não estávamos nos dando bem mesmo”, ela adiciona. “Nós éramos um bando de adolescentes jogados numa van, colocados na MTV. O mundo estava nos olhando como se nós tivéssemos encontrado o tíquete de ouro. Para a gente era tipo ‘estou cansado e quero ir dormir na minha cama’. Eu estou feliz por dizer agora, como adultos que aceitam mais a nossa escuridão e mais aceitadores das nossas diferenças, que nós somos amigos muito melhores uns para os outros”.

Williams e Gilbert se casaram em 2016, pouco antes de atingir uma década juntos. Ela escolhe ser vaga discutindo o seu agora ex-marido, querendo evitar “muitas ligações” mais tarde, mas vincula seu casamento repentino como um efeito persistente do divórcio de seus pais e como isso a deixou “fodida”. Ela queria legitimidade e colocou um curativo sobre o affair ainda sem resolução que iniciou o relacionamento.

“Eu precisava tanto que esse relacionamento funcionasse”, Williams conta, falando lentamente. “Eu apenas sabia que quando estava a caminho do casamento não estava apenas tomando uma decisão terrível para mim, mas estava fazendo uma decisão terrível para o meu parceiro”.

O estresse emocional afetou seu corpo, como aconteceu quando ela tinha 18. Williams começou a se distanciar de suas amizades também. Quando ela gravou a música Pool para o After Laughter, ela fala, a dor, a infelicidade e a depressão clínica que ela vinha ignorando finalmente veio a tona. O companheiro de banda Taylor York tinha dado para ela a melodia de Pool um ano antes de ela finalmente escrever a letra.

“Eu estava tipo, ‘Isso vai ser uma canção de amor. Eu vou provar para todo o mundo que isso é um casamento e que estou apaixonada”, ela relembra. Ela ri com o produto final, uma história de mergulho constante em algo apenas para continuar afundando. “Eu já fui muito machucada. Você não pode fazer a mesma coisa de novo, de novo e de novo e esperar um resultado diferente”.

Muito de Petals for Armor se parece como uma continuação de um trabalho que Williams começou com a sua banda em After Laughter — apenas dessa vez, com a ajuda de espaço e terapia, ela pode estar triste e se mover para a claridade também. Ela estruturou Petals for Armor em três partes distintas, com as músicas caminhando da escuridão para a luz em ambos, temas e sonoridade. O padrão reflete a sua própria recuperação de todo o trauma que ressurgiu enquanto ela fazia esse trabalho.

“Eu não acho que você consegue o que é bom antes de escavar pelo que é ruim primeiro, ela fala. “É como se você estivesse tentando encontrar o centro da Terra — como você pode encontrar sem quebrar o calcário e coisas duras e pesadas?”.

Últimamente, ela tem se surpreendido com quão fácil a felicidade pode ser. “Uma vez que você passa por isso, você encontra a água fluindo”, ela conta. “Uma vez quebrei fundo o suficiente, as coisas começaram a derramar. Eu fiquei surpresa em encontrar que tinha, tipo, uma merda boa dentro. Uma merda mais feliz”.

Tradução e adaptação: Paramore BR