Billboard: “Hayley Williams sobre os desafios de divulgar um álbum durante uma pandemia”

A Billboard postou nesta segunda-feira (27/04) uma longa entrevista com Hayley Williams a respeito dos desafios de lançar e divulgar um álbum novo durante uma crise pandêmica, algo que definitivamente não estava nos planos da cantora. Além de conversar com Hayley, Tatiana Cirisano (Billboard) também traz, antes da entrevista em si, um breve resumo da trajetória de Hayley até chegar na consolidação de seu novo álbum solo, Petals For Armor. Confira na íntegra:

Por lançar “Petals for Armor” em três partes, a vocalista do Paramore achou um modelo inesperado para lançar sua música solo muito aguardada. 

“Estou repensando todo o meu negócio de ser introvertida,” brinca Hayley Williams. A vocalista geralmente impetuosa do Paramore está encolhida no sofá na sua casa em Nashville com uma caneca de café em mãos, o cabelo marca registrada cor de laranja-cenoura agora loiro platinado, usando um roupão listrado e conversando por Skype. Como todo o mundo, Williams está em quarentena devido à contínua ameaça do coronavírus. Pelas últimas três semanas, seu cachorro, Alf, e uma pilha de álbuns de rock em vinil que sua mãe havia trazido, têm sido suas únicas companhias. 

Fora a pandemia global, a vocalista de 31 anos do grupo pop-punk chamado Paramore já estava passando o último um ano e meio aperfeiçoando a arte de ficar sozinha. Depois da turnê do álbum After Laughter de 2017, a banda entrou em hiatus temporário e Williams se encontrou sem nenhum plano pela primeira vez em anos. Adicione a isso o seu divórcio com o guitarrista da New Found Glory, Chad Gilbert, que foi finalizado enquanto o Paramore estava em turnê, e quando Williams voltou para casa no final de 2018, “Eu tive essa experiência de reviravolta emocional”, ela recorda. “De estar me movendo, movendo, movendo para ‘okay, vamos fazer uma pausa’”. 

Foi a terapeuta dela que sugeriu que ela canalizasse seus sentimentos para escrever músicas. Primeiro veio “Leave It Alone”, uma reflexão cheia de afeto sobre perda que Williams escreveu junto com o baixista de turnê do Paramore, Joey Howard. Ela fez a demo de mais cinco músicas, trocando o brilho new wave de After Laughter por guitarra mais esparsa, letras do dia-a-dia e floreios vocais peculiares com a ajuda do guitarrista do Paramore, Taylor York. Ainda, ela só pensou no projeto como sendo hipotético. “Eu ficava ‘Bem, se isso algo  for real…”, ela diz com um sorrisinho. “Taylor tinha que ficar dizendo para mim ‘Isso é real. Já é real’”.

Quando ela se viu sonhando em apresentar a música no palco, Williams começou a acreditar nele. Ela revelou ao gerente de longa data do Paramore, Mark Mercado, um plano: ela lançaria o seu primeiro álbum solo, Petals For Armor, em três partes, guiando os fãs passo a passo através da sua recente jornada emocional de raiva, para paz e então, empoderamento. Part I foi lançado dia 6 de fevereiro; Part II se desenrolou faixa por faixa até 24 de abril (uma decisão tomada em vista da pandemia); e o álbum completo chegará em 8 de maio, incluindo as músicas das duas primeiras partes com faixas adicionais. 

O lançamento do álbum em várias partes não é uma ideia nova. A rainha sueca do eletro-pop Robyn lançou seu álbum revolucionário Body Talk em três partes em 2010 e continua como um guia para escritores de músicas pop uma década depois. Nos últimos anos, um número de artistas – de veteranos como John Mayers até atos mais novos e chamativos como Brockhampton de Kevin Abstract e a dupla pop country Maddie & Tae – tem experimentado lançar músicas em palcos secretos, mas ainda sem muito mais sucesso do que o tradicional lançamento em álbum. 

Mas o lançamento gradual de Williams está pronto para potencialmente ser o mais bem sucedido do seu tipo até o momento. A fanbase fanática de fãs do Paramore, sempre pronta para devorar qualquer pedacinho de música nova que ela lança ajuda, é claro, mas o álbum em si é uma declaração coesa – uma coleção de músicas comoventes que a demonstram no seu momento mais honesto – impulsionada por uma estratégia de lançamento precisamente desenhada para as suas três ondas arrebatadoras de emoção. De cara, a primeira faixa “Simmer” lançou já no topo de quatro paradas de sucesso de rock da Billboard, atingindo o topo de número 7 no Hot Rock Songs

“Nós queríamos abordar isso [o projeto] de forma diferente de qualquer coisa que o Paramore já tenha feito”, diz Mercado. “A verdade é que o material precisava disso”. Enquanto a banda há tempo lança sua música através da marca punk Fueled By Ramen pertencente à Warner Music Group, Williams separou o Petals For Armor lançando-o pela Atlantic Records da Warner, onde a presidente/COO Julie Greenwald designou uma equipe inteiramente nova, quase completamente feminina para o projeto. “Quando é um novo par de olhos, todas as ideias são novas”, Greenwald diz. “Cada parte dessa campanha diz “Eu sou Hayley Williams’”.

O lançamento gradual também permitiu flexibilidade em um momento em que é comprovadamente crucial. Em meio a pandemia, Williams foi capaz de tomar a decisão de última hora de lançar as faixas de Part II fragmentadas ao invés de tudo de uma vez, oferecendo aos fãs em quarentena algo novo pelo que esperar a cada semana. Com cada música, ela lançou presentinhos como clipes com cenas dos bastidores, tutoriais de dança no Instagram e clipes cinematográficos, muitos dos quais montam uma história de Williams entrando e escapando de uma crisálida semelhante a um inseto. 

“Um dos maiores desafios agora é continuar com o ritmo” de transmissão, diz Nina Webb, responsável sênior pelo marketing da Atlantic Records. “Artistas trabalham tanto para criar um corpo de trabalho, e então os fãs consomem tudo tão rapidamente. Isso mantém os fãs satisfeitos com mais música – e cinco músicas são mais facilmente consumidas do que 15 de uma vez só”.

Por ora, com o lançamento chegando perto de ficar completo – e com as turnês de verão da Europa e América do Norte sendo re-agendadas – Williams está se ocupando como todo o mundo na quarentena: balanceando trabalho com distrações prazerosas. Ela está fazendo chips de maçã enquanto conversamos e ela logo vai aprender a coreografia para seu próximo lançamento: um mini vídeo de exercícios para a faixa “Over Yet” do Part II. “Eu trabalhei comigo mesma e fiz algo do qual estou orgulhosa”, ela fala sobre o período de solidão, ambos antes e durante a quarentena. “Agora estou tão pronta quanto poderia estar”.

Como você está abordando trabalho em meio a pandemia?
Nós só estamos confusos sobre “Como você promove algo nesse período sem parecer um completo babaca?”. Outro dia, eu estava na banheira com uma máscara facial maluca e Bethany Cosentino do Best Coast me ligou no FaceTime. Nós estávamos tentando encorajar uma a outra a continuar trabalhando. Hoje, lançar a música “Over Yet” me ajudou bastante, porque me dá algo para focar energia, ao invés de assistir Succession de novo. Cada música é um catalisador para mais conversa e conexão, algo pelo qual estamos todos desesperados no momento.

Desde a sua adolescência, você sempre resistiu a ser empurrada para uma carreira solo – você costumava se apresentar com uma camiseta que dizia “PARAMORE É UMA BANDA”. Você estava apreensiva sobre finalmente ir solo depois de anos dizendo “não”?
Levei um tempo para aceitar que eu estava afim da ideia. Eu disse “nunca” por tanto tempo que pareceu errado mudar o tom. E também levei um tempo para perceber que só porque estou criando algo que eu queira ser dona um pouco mais, não significa que eu não posso ter minha galera como parte disso. [York produziu o álbum, Howard é co-autor de várias músicas e o baterista do Paramore, Zac Farro, toca em algumas faixas]. Eu realmente não prefiro estar sozinha. Meio que sinto falta da troca de energia de ter o Zac e o Taylor por perto para algumas dessas coisas. 

E sobre ir por um caminho sonoro diferente? 
Quando escrevi “Dead Horse”, fiquei muito surpresa que algo tão pop poderia sair de mim. Estava envergonhada sobre algumas letras. Eu quase entrei de volta no meu casulo, mas lutei e decidi “Tem uma razão pra essa m*rda estar saindo, então vou em frente com isso”.

Qual foi o ponto de virada que fez você decidir ir em frente com o projeto?
Eu tenho uma relação de amor e ódio com o sucesso: eu quero que o álbum vá bem porque eu quero que as pessoas ouçam, mas eu também sinto muita pressão. Eu sentia que “Cinnamon” e “Sudden Desire” eram músicas que eu gostaria de ter a experiência live, e então eu fiquei “Já estou tendo visões disso. Está decidido”. Mark [Mercado] me convenceu a contar para a gravadora. E pensava “será que eles vão pensar que isso significa que estou tentando fazendo um álbum pop famoso? Não é isso que eu quero”.

Foi diferente trabalhar solo? E se sim, como foi? 
Nós sempre fazemos os álbuns do Paramore de forma bem similar – nunca sabemos a direção em que estamos indo quando começamos. Mas todo o resto foi bem diferente. Foi super intimidador, porque eu estou em uma onda com pessoas vastamente talentosas, então realmente não me sinto compelida a chegar lá e comandar. Mas eu experimentei e a minha musicalidade se tornou um personagem central. O coração da coisa é não tentar suprimir os instintos. Isso foi algo que aprendi compondo com o Taylor. Não diria que se tornou uma fórmula, mas o Paramore definitivamente se tornou confortável. É muito bom ter alguém te olhando e tendo tanta fé em você. Você chega em um lugar completamente novo.
 
Você assinou com a Atlantic por volta dos 14 anos e tomou conta da sua carreira desde então. Como você faz para ser escutada?
Teve uma reunião [com a Atlantic] que eu lembro, onde tinham ultimatos sendo apresentados. Eu era uma criança. Eu disse “Olha, eu seria tão feliz quanto apenas voltando a tocar no porão do meu amigo. Eu não preciso disso tudo”. Essa é a mesma energia que eu carreguei pela minha carreira inteira. Ao longo da minha vida, um dos meus problemas é a sensação de não estar sendo ouvida. Estou trabalhando isso na terapia. Eu acho que minha necessidade de me apresentar em palcos é porque bem no fundo, eu quero ser ouvida e compreendida. E essa sensação vem junto comigo quando vou para uma reunião. 
Eu só tenho que confiar que o que eu digo é verdade e ser ousada o suficiente para dizer as coisas que sinto. E isso não significa que chego intimidando. Eu sou bem o contrário e gostaria de ser mais intimidadora nos negócios. Especialmente quando assisto Succession [risos]. Para o Petals For Armor, eu sentei com Max [Lousada; CEO das gravações do Warner Music Group] e Julie e falei para eles “Estas são as minhas influências e as músicas que compus até agora. Eu quero fazer algo com isso. E é assim que eu quero fazer isso”.

Por que você acha que um lançamento em três partes faz sentido para esse projeto? 
Algumas dessas músicas não ficam bem juntas. Elas vivem no mesmo universo, mas é como os filmes da Marvel: você tem noção desses outros personagens, mas talvez eles não estejam juntos em todos os filmes. Eu queria mostrar isso e o mesmo jeito era apresentar as músicas quase exatamente do mesmo jeito que vieram para mim. Quando eu comecei a escrever essas músicas, eu comecei a passar pelas partes mais profundas e sombrias, acho, da minha “jornada de cura”? Me sinto tão cafona dizendo isso. Quando cheguei nas músicas que vieram depois, eu estava vendo mudanças em mim e me sentindo muito mais leve.
 
Como você acha que o lançamento gradual muda a experiência de ouvir as músicas?
Em questão de letras, há muito o que explorar. Eu realmente gostava de poder dizer “aqui está uma música nova”, e então por uma semana eu poderia tanto responder perguntas sobre ela ou criar conteúdos que eram focados apenas naquela música. Eu posso ser mais delicada em como eu entrego elas. 

O gênero de rock tem sido discutivelmente mais lento em inovar nessa frente. Por que você acha que isso acontece?
Eu acho que há menos recursos no gênero. E acho que cantores de rock são pessoas com pensamentos mais alternativos. É completamente diferente para uma banda alternativa fazer um patrocínio ou apoios porque há essa mentalidade de “não quero vender”. Mas artistas pop, de R&B e de hip-hop – eles são tão orgulhosos dessas parcerias e realmente ajudam a alavancar a carreira deles. Nós também não celebramos o rock em um grande nível. O Grammy não mostra gêneros alternativos. Quando Paramore ganhou a melhor música de rock [por Ain’t It Fun] em 2015, não apenas ganhamos e não estávamos lá, como também não é um prêmio televisivo. 

Essa experiência mudou o jeito como você pensará sobre lançamento de músicas no futuro?
Independentemente do coronavírus e da quarentena, eu acho que nós já estamos tendo que pensar em novos jeitos de fazer as coisas. Não apenas porque pode ser lucrativo, mas também porque é tempo de tentar coisas novas. Eu lanço álbuns desde que tinha 16 anos e nós mais ou menos fizemos sempre do mesmo jeito. Isso [a forma de lançamento] deu um jeito nessa vontade [de fazer algo novo], onde espero que tenha aprendido algo com tudo isso, e quando chegar a hora do Paramore fazer algo novo, nós possamos decidir. Talvez quando chegar esse dia, já terão todos esses novos jeitos diferentes de fazer isso – um grande buffet de como lançar qualquer m*rda.

Tradução e adaptação: Paramore BR