Hayley Williams sobre saúde mental, autocuidado e GDY à revista NYLON

Acompanhada de uma sessão de fotos, a revista NYLON publicou uma nova entrevista com a vocalista, abordando assuntos como sua saúde mental e sua linha de tinturas para cabelo, Good Dye Young. Confira traduzido abaixo!

Hayley Williams não é uma estranha para os festivais de música. Ela tinha apenas 14 anos quando formou a sua banda Paramore, e então se viu tocando em um festival antes mesmo de ter idade para entrar sozinha em um. Mas, Williams nos disse, mesmo que sempre soubesse que pertencia aos palcos dos grandes festivais, nem sempre sentia segura estando na plateia – principalmente por ser uma mulher jovem, algo que nem sempre é bem-vindo para grandes multidões.

Recentemente, Williams tem se aberto mais sobre diversos assuntos, como a sua luta com a saúde mental, e a sua transparência tem sido bastante apreciado pela massiva base de fãs. Essa sinceridade também a ajudou a lidar com os problemas de maneira construtiva – e a levou a querer ajudar outras pessoas que, assim como ela, também lidam com os mesmos problemas.

Uma das formas que Williams vem fazendo isso é garantindo que outros frequentadores de festivais tenham um espaço seguro para se abrigarem quando se sentirem oprimidos durante o festival. Assim, neste ano, ela participou da curadoria da própria praça no Bonnaroo: o Santuário do Amor Próprio, que irá educar os frequentadores acerca de problemas de saúde mental e permitir que eles escapem da agitação do festival para relaxar um pouco. Painéis, mini sessões de spa e ioga são algumas das atrações que os frequentadores do festival poderão participar – e ainda a GoodDyeYoung, companhia de tintura de cabelos de Williams, estará no local para fazer transformações.

Antes do Bonnaroo, Williams e sua fotógrafa Lindsey Byrnes (que também é uma amiga de longa data de Williams) curtiram o espaço vazio e conversaram mais sobre a trajetória de Williams. “Eu quero que as pessoas saibam que, mesmo sendo introvertidos, existe um espaço para vocês nos festivais”, diz Williams. “Ir a um show é uma das experiências mais confortantes que um humano possa fazer, pois existe toda uma comunidade por trás, existe uma libertação”. E ela definitivamente sabe disso.

Existe alguma coisa que realmente chamou a sua atenção para o Bonnaroo, em relação aos outros festivais (e a fez querer fazer o Santuário do Amor Próprio)?
Qualquer um que vier para Nashville ou região [sabe que] é diferente de ir à Los Angeles, ou ir ao Coachella. Não é a mesma vibe e eu garanto que, mesmo sendo suspeita para falar, existe a tal “hospitalidade do sul”. Existe toda essa bondade comunal que é muito legal, e isso é ótimo.
Nós tocamos em diversos festivais, já tocamos em palcos menores, também já fomos a atração principal. Realmente crescemos fazendo isso. E eu te digo que, no momento em que começamos a primeira música do set no Bonnaroo, foi diferente. Existia todo esse sentimento que emanava da plateia, eu não conseguia ver o fim.

Foi um sentimento tão positivo, e as pessoas estavam lá umas para as outras, estavam lá para nós e para os outros artistas que subiam naquele palco. Eu nunca havia sentido nada parecido antes. Nunca havia sentido o apoio que senti lá. Não consigo explicar. E não é apenas dizer que “aquela plateia era muito melhor que qualquer outro plateia”. Foi um sentimento positivo maravilhoso. E eu não queria que aquilo terminasse, pois estava amando muito. Mesmo depois que saímos de lá… eu realmente me senti conectada com o coração daquele festival. E é legal estar envolvida de uma forma diferente. Eu posso ajudar a fazer a experiência de outras pessoas.

O que eu mais amei sobre trabalhar no Bonnaroo é entender o espírito e a cultura que a organização promove. Eu poderia dizer que o espaço que estamos construindo será para os introvertidos que irão curtir o final de semana no festival. Um lugar onde você poderá tirar um tempo para você, meditar durante a manhã, se recarregar e se conectar, tanto com você mesmo como com outras pessoas, de uma maneira que talvez não tenha sentido em qualquer outro festival. Outra coisa que eu amo sobre o Bonnaroo é o interesse em promover um espaço para isso.

Como a GoodDyeYoung se encaixa nessa história?
Nós apoiamos as pessoas que se empoderam utilizando ferramentas para se revelarem, formarem uma identidade criativa e de expressão própria – utilizando produtos de beleza como forma de contar a sua história e não apenas se espelhar na beleza dos outros. É sobre celebrar a própria beleza. Eu sinto que várias empresas novas, especialmente aquelas criadas por mulheres, estão seguindo esse caminho, de celebrar a individualidade, a singularidade e a expressão própria. Mas me anima isso que estamos fazendo, pois não existem muitas companhias assim no ramo capilar.

Então, estávamos interessados nisso e queríamos ofertar um espaço assim no Bonnaroo. Mas então a conversa escalou rapidamente para um “Vocês gostariam de trabalhar na curadoria de um espaço que envolva a GoodDyeYoung, junto com outras instituições locais e outras companhias que partem dos mesmos valores que os seus?”. Na hora pensei “Cara, seria demais se focássemos sobre saúde mental, pois é um diálogo que faz parte da cultura atual”.

Em qualquer lugar você encontra um debate sobre saúde mental, e o que fazer para melhorar a nós mesmos – ou o que não fazer. Nos últimos dois anos, eu estava negando que estivesse com depressão. Sabia que estava triste e sabia que estava passando por muita merda, mas apenas pensava “estou no controle disso, estrou no controle”. E, sendo honesta, na época que o Bonnaroo me convidou, eu não estava bem. Durante a primeira reunião que nós tivemos – eu fui descobrir isso recentemente – eu ficava puxando a pele ao redor das unhas, incessantemente, até sangrar. E eu guardei isso, pois acho que sou uma acumuladora…

Você guardou as suas unhas?
Não, não! Eu guardei os papeis da primeira reunião, pois sou sentimental e costumo fazer isso – com as coisas da carreira do Paramore, das coisas que fiz e que senti que eram especiais. Naqueles papeis estavam as nossas primeiras ideias, e também havia sangue por toda a página. Eu estava passando por isso. Estava começando a aceitar a minha depressão, aceitar o meu trauma e tudo aquilo que não havia lidado antes. E então o álbum mais recente da minha banda, o After Laughter, passou a fazer ainda mais sentido.

Isso me fez sentir mais apaixonada por este trabalho, proporcionar às pessoas um lugar par achar o que está dando certo em sua vida, na sua jornada em busca de se tornar uma pessoa mais saudável – mental, emocional e espiritualmente. Para alguns, isso virá das atividades cinestésicas em grupo, onde poderão criar a própria arte e ver que são totalmente capazes. Isso tem sido importante para mim recentemente, ser capaz de perceber que fiz algo que valesse a pena. Para outras pessoas, talvez seja a meditação, quieta e pessoal, ou talvez a meditação guiada, que também é bem quieto e bem pessoal. Eu preciso um pouco de ambos, e também preciso de um gesto mais estrito também.

Vamos falar da sua relação com o Brian [O’Connor, diretor criativo da GoodDyeYoung] e a primeira vez que vocês – ou apenas ele, não sei a origem disso – tingiram o seu cabelo. Sejamos sinceros, você fez com que os cabelos coloridos se tornassem uma febre. Digo, era popular na cena punk e tal, mas você meio que popularizou isso.
Eu era uma típica criança no começo dos anos 2000. Usava tintura comprada em farmácia e tal. Nós éramos crianças suburbanas e estávamos entediados e, certo dia, pegamos um dinheiro que havíamos ganhado, provavelmente ajudando na pizzaria do pai do Zac e do Josh, e torramos em várias caixas de tintura preta, e aquela foi a nossa tarde.

“Ei banda, nós tingimos o cabelo de preto”.
Exato, estava na moda estar combinando em uma banda, e bater a cabeça em sincronia também. Honestamente, eu não tinha certeza qual era a diferença entre as boybands e as bandas de cena dos anos 2000, as bandas emo do começo dos anos 2000…

Emo… banda da cena… bandas da Warped Tour
Não vamos iniciar uma discussão sobre o que é emo, pois, para mim, significa algo diferente do que as pessoas mais jovens ou as pessoas mais velhas que eu pensam. É uma coisa de geração. Mas o cabelo… eu sempre estava animada em mudar o meu visual e alterar minha aparência com base nas coisas que eu podia controlar. Tipo, como eu poderia mudar a minha aparência de uma forma que expressasse o que estava sentindo, ou no que estava interessada?

A tintura era preto azulado?
Era preto azulado sim. E foi bem difícil de tirar do meu cabelo depois. Por isso que o meu cabelo aparenta estar basicamente castanho no encarte do primeiro álbum. Eu tentei tingir de ruivo por cima. Não deu certo.

Tinha 16 anos. E, naquela época, eu mesma tingia o cabelo. Então, no final do ciclo daquele álbum, decidimos fazer um último videoclipe, durante a nossa primeira turnê enquanto atrações principais. Eu queria um cabelo igual um fósforo. Queria raízes ruivas, um cabelo meio avermelhado, com as pontas amareladas. Eu não sabia…

Você queria se parecer como uma chama.
Sim, queria ser uma chama. E isso talvez viesse do subconsciente, imaginando jornalistas dizendo, “a vocalista com cabelos de fogo… a irada Punky Brewster”. Queria que esse tipo de comentário fosse feito sobre a nossa banda. Seria como as pessoas me descreveriam, pois tinha cabelos ruivos.

Então você apenas pensava “Vamos fazer isso e ver no que vai dar”
Sim. Acho que, no fundo, pensava que seria algo legal mesmo que me irritasse as pessoas focarem apenas no meu cabelo. Eu pensava “Foquem na banda. Na música”. Era bem… Eu queria que fosse algo legal. EU queria que fosse legal. Mas também me diverti em poder me expressar.

Não sabia como fazer aquele cabelo, então encontrei um salão que parecia ser bastante legal, em Franklin [Tennessee], tinha várias pessoas jovens que trabalhavam lá. Foi então que conheci o Brian.

Na época ele tinha 19 anos e eu tinha acabado de fazer 17… Era a primeira vez que nós nos encontramos e trabalhamos juntos. Ainda que, naquela época, eu não tivesse certeza que o veria novamente, quando você assiste o clipe de Emergency, basicamente foi o trabalho que ele e o dono do Pink Mullet haviam feito. Não é louco?

Aquele foi o começo do começo.
Nós saímos para fazer a turnê, e eu senti que não voltei para casa sendo a mesma pessoa que era antes, pois o álbum havia acontecido, a banda se tornou muito, muito popular na época, e também havia completado 18 anos. Meu estilo – ou o que quer você chame aquela moda, que não era boa – meu cabelo, o jeito que fazia a minha maquiagem… Não havia um maquiador comigo na estrada. Eu meio que esfregava aquelas merdas todas sobre os meus olhos e as pessoas ou se relacionavam com aquilo e queriam fazer igual ou achavam que era muito estranho. Era uma imagem bastante polarizada, nossa banda eram aquelas crianças do pôster da Hot Topic.

E é louco pensar sobre isso, pois, mesmo depois disso tudo, o Paramore meio que tomou consciência da caricatura que era para a cena, e rapidamente rejeitamos isso. Na mesma rapidez que nós havíamos nos tornado naquilo, nós rejeitamos aquela imagem. E acredito que seja o motivo principal de ainda estarmos por aqui. Nunca deixamos que aquilo nos engolisse. Ainda que eu continuasse a tingir o meu cabelo e vestir roupas estúpidas, meio que começamos a testar coisas novas. E para mim, enquanto uma garota que cresceu e se tornou uma jovem mulher, isso foi algo do tipo “Ok, preciso encontrar novas formas de poder me expressar”, pois é isso que você acaba fazendo. E isso se manifestou na minha imagem no Paramore.

É bem interessante ver essa perspectiva Eu não sabia que o público teve aquela imagem sua, pois, na verdade, você estava insegura. Nós apenas olhávamos para você, Hayley, e pensávamos “Ah meu Deus, ela é tão bonita. Olha lá ela no palco, o cabelo dela é irado”, e blá blá blá. E, por dentro, você estava pensando “Eu não quero sair do palco apenas por estar passando por uma situação difícil. Não quero ser isolada”.
Sim, foi um dilema, pois, por um lado, se não fossem pelos shows, eu não estaria viva. Era uma forma de expressar fisicamente a minha energia.

Uma troca de energia que me ajudou a controlar problemas de raiva. Isso me ajudou quando eu estava muito triste, e apenas queria dançar para esquecer tudo. Ajudou fisicamente, mexer o corpo e suar, o que é ótimo para a mente. Mas eu não sabia que as turnês também estavam arruinando a minha saúde mental, pois ao mesmo tempo em que isso me ajudava, também servia para apontar as minhas falhas. E é o custo de crescer sob qualquer tipo de holofote.

Mas algo interessante que eu vejo sobre a GoodDyeYoung e sobre o lance do Bonnaroo é que é muito difícil começar uma banda. É muito difícil começar uma companhia. É muito difícil fazer parte de um festival e iniciar algo do zero em um ambiente já estabelecido. Mas é por causa disso que você se lembra de estar muito, muito presente. Saber que isso poderá te destroçar, mas também te mostrará coisas sobre você que talvez nem saiba que existam. Eu mesma, da época que me juntei ao Paramore, da época que conheci o Brian, e por aí vai… eu aprendi que me sinto bem em aprender mais sobre o que eu gosto, sobre as coisas que fazem valer a pena. É difícil imaginar que um milhão de zilhão de pessoas saibam como eu me pareço em um dos meus piores dias e que também saibam como eu me sinto nos piores dias. Elas sabem do bom, do mau e do feio sobre mim, mas para construir algo é preciso muito sacrifício, é preciso colocar o orgulho de lado e errar muito. É muito bom ter 30 anos agora. Eu não sei o que aconteceu de diferente quando completei 30 anos, mas existe menos… Eu coloco menos pressão em mim mesma para ser boa no que faço, e não estou mais preocupada com a aprovação de todos, o tempo todo.

Parece que, nos últimos anos, você pôde ser mais vulnerável sobre o fato de que você comete erros – até mesmo com a companhia. Como você acabou de dizer, parte de ser humano e de crescer é ser vulnerável. Como tem sido isso?
O Paramore foi fundamental para mim, seja para o melhor como para o pior, me preparou para decepcionar as pessoas. Acredito que o Paramore me preparou muito bem para errar na frente das pessoas e aprender a colocar o orgulho de lado.

Um ponto sobre companhias é que elas são feitas por seres humanos. Por exemplo, Brian e eu cometemos vários erros, em termos de formulação, e tivemos que corrigir. Tivemos que ser transparentes sobre essas coisas.

Algumas coisas você apenas conserta e deixa acontecer. Eu estou começando a entender que muitos erros acontecem na indústria da beleza a todo o momento. Nós estamos constantemente melhorando e tentando corrigir, para ter certeza de que estamos fazendo a coisa certa.

De maneira geral, nós erramos em fórmulas, erramos na equipe, erramos nos acordos. E está tudo bem, pois, primeiramente, ainda estamos aqui, então ainda estamos aprendendo. Contanto que nós possamos continuar a aprender, seremos capazes de melhorar.

Eu prevejo que a GoodDyeYoung continuará por um longo tempo. Isso significa que, se existe algum erro no sistema agora, servirá como um alerta. Será algo que iremos tomar de lição e, no futuro, pensar “Lembra daquilo? Bom, veja onde estamos agora”. É aquela merda de visão geral na qual você sempre precisa estar atento. Quando eu tiver 75 anos, irei olhar para trás e pensar “Foi ótimo”.

Tradução e adaptação: equipe do Paramore BR | Fonte